quinta-feira, outubro 19, 2006

Jeitinho, uma pitada de malandragem e (falta de) graça

“... mas não vou acender agora. Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora.”
“... que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa...”

Na segunda-feira cumpri o ritual. Postei-me na fila do consulado, ali no início da rua México, para horas e horas de espera, e senha, e outra fila, e guichê, e digital no leitor ótico, espera de novo, senta, conversa, muda de lugar e, lá pro início da tarde, uma entrevista de um minuto, se tanto. Pronto, agora tenho visto renovado. Uncle Sam, here we go again.

Como alguns de vocês talvez tenham lido lá no texto “One day at the races e...”, procuro, na medida do possível, fazer de uma falta (um problema ou contratempo) algo que dê prazer. Dessa forma, se você não é alguém muito, muito famoso, a fila do consulado americano é a opção única para obtenção do salvo-conduto para os EUA. E como todos sabem, é uma fila “de responsa”. Mas diferente de todo mundo, eu não sabia. Ou melhor, sempre soube que era longa (e já a enfrentei mais de uma vez) mas cultivava a esperança de estar um pouco melhor, mais célere. Tanto que ao deixar o carro ali perto, na avenida Beira-Mar, disse pro guardador “deixa pra volta, não vou demorar!”... Bom, já que a espera era inevitável, "vem, vambora" relaxar (diria a Calcanhoto).

Cheguei por volta das 8:30 da madrugada. A fila tinha uns 20 metros, algo assim. Primeira providência: arrumar os tais formulários para preencher ali mesmo e que ainda não os tinha (naquela manhã, bem cedo, a lei de Murphy havia me atingido: fui imprimir em casa os formulários e... acabou a tinta! Perigo, perigo! estresse, estresse!). Obtidos os formulários, hora de preencher. Perguntas de praxe e aquelas questões sobre querer praticar algum atentado nos states ou ter participado de algum genocídio. Não, não, não! Nego tuuudo!

Pronto, consegui ocupar meus 10 primeiros minutos de espera. E agora? À minha frente, um jovem casal, uns 30 anos. O rapaz parecendo paulista, terno elegante, gel no cabelo, rosto escanhoado, óclinhos. A moça seguindo o padrão “jovem advogada” ou jovem-profissional-de-qualquer-área-na-qual-se-deve-impressionar-positivamente-o-cliente. Bem postados, na vida e ali, resignadamente na fila. Logo atrás, um casal levemente passados dos 50 anos. Noto uma leve aflição nesses últimos e escuto seu dilema: “você me espera aqui; eu vou ao banco pagar a taxa”; “tá... tem uma agência [do Citibank – único lugar onde se pode pagar a taxa de US$ 100] lá na rua da Assembléia”. Intrometo-me, com o espírito samaritano: “olha, tem uma agência nova aqui perto, na Araújo Porto Alegre, logo ali ó, à direita”. Mas saliento que àquela hora (quase nove) estaria fechada; “só às 10”. Eles entendem que (apenas) a nova agência abriria às 10 horas já que o senhor diz, “ahhh... passei pela outra agência, já está aberta...”. Aberta?? É óbvio que não! Decerto viu alguém entrando para os caixas automáticos e presumiu os caixas humanos funcionando. Fico desconcertado. Onde vive essa gente que não sabe o horário bancário? Coisa incrível... Pelo sim, pelo não, dentro de alguns minutos parte a senhora, sabe-se lá para qual agência.

“Já pagou a taxa?”, perguntam uns camaradas que percorrem a fila, mostrando uma folha de taxa paga. Já, já, já, já, todos pagaram. Surgem outros: “tem foto? tem foto?”. O senhor de trás, agora sozinho, não tinha. “Mas vou esperar minha mulher voltar”. “Não, não, vamos logo, é rapidinho”. “Onde?”. “Ali, do outro lado [da rua]”. Foram. Observo. No meio da calçada do lado de lá um fundo branco grudado com ventosas na fachada do prédio decano faz o trabalho de estúdio. Momentos depois, quando volto a olhar, já vem voltando o senhor com a foto para o passaporte. Valor da película: vin-te reais. É aquilo: “vou apertar mas não vou acender agora”.

Sem contar os cambistas de taxa e foto, tem ainda, já há longa data, a barraquinha para guarda de volumes (bolsas, celulares, et al) que não podem adentrar o consulado. Até onde sei, o barraqueiro já teve seus dias de glória. No entanto há alguns meses o Cônsul se dispôs a guardar os badulaques do povo. Ainda assim, resiste lá a barraca à espera de algum incauto, provavelmente.

No meio disso tudo, a moça jovem-advogada resolve se mexer. Afinal já estamos há cerca de uma hora por ali. Bem à minha frente, saca o celular. Na altura dos olhos começa a escrever uma mensagem a qual, em explícita invasão de privacidade e da qual não consigo fugir, sou obrigado a ler. “Fulano, estou passando mal, só vou trabalhar à tarde. Se alguém perguntar por mim, me avise”. Ora, ora, mentindo hein, garota?... Por que não dizer, com antecedência, “olha na segunda, dia tal, daqui a dois meses, vou ter que ir ao consulado, blábláblá”? Continuando assim, sua carreira não vai longe lá no escritório...

Mensagem enviada, hora de cuidar da aparência (somos do terceiro mundo mas somos arrumadinhos). Mocinha saca seu espelho de maquiagem; pega uma pinça no fundo da bolsa; encosta-se no muro baixo que circunda o consulado e põe-se a fazer as sobrancelhas! Assim, no meio da rua, “tô nem aí, tô nem aí”. O noivo (isso descobri depois) impávido, aparentemente achando normal. Ih, esse vai sofrer. “... mais cheia de graça (...) num doce balanço, a caminho do mar...”

Bom, lá dentro, é aquilo que já disse: entra numa filinha, dá papel. Senta; vai num guichê, digital; volta para a fila e no final conversa um minuto e vai embora. Mas não sem mais uma pitada do jeitinho: faltam poucos para serem atendidos. Uma menina à minha frente comenta algo com um segurança do consulado sobre a longa espera. Ele diz, para todos nós: “Ah, mas agora é melhor, fica mais fácil. Eles (os gringos da entrevista) já estão mais cansados, são menos rigorosos”. “Hum, será?”, penso.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Chup, chup, chup

Olha, quem levantou essa bola não fui eu. Podem colocar na conta da Patrícia Cunegundes que, em seu ótimo blog “zeromeiaum” (link ao lado), surgiu com a história do “maníaco do dedo”. Agora acompanho a carreira do fora-da-lei. Segue abaixo a última notícia sobre este afamado meliante digital.

-o-o-

Maníaco do Dedo ataca mulher de 50 anos em Mesquita. Mais seis vítimas registram queixa

"Rio - O Maníaco do Dedo — taradão que está aterrorizando as mulheres na Baixada Fluminense — fez sete novas vítimas. Uma delas é mulher de 50 anos, moradora de Mesquita.

A vítima contou aos agentes da 58ª DP (Posse) que o criminoso invadiu sua casa de madrugada e foi direto ao quarto. Lá, pediu que ela calçasse um sapato alto, para depois tirá-lo e, como faz em todos os ataques, chupar os dedos dos pés da vítima.

Dessa vez, o Maníaco do Dedo não deixou um recado obsceno escrito na parede [os recados obscenos eram "seus dedos são muitos gostosos"], como vinha fazendo. Desde junho do ano passado, o safado já fez 31 vítimas, nos municípios de Nova Iguaçu, Mesquita e Nilópolis.

Além dessa vítima, outras seis mulheres compareceram à delegacia nesta terça-feira para registrar ocorrência: quatro de Nilópolis e duas de Comendador Soares, em Nova Iguaçu. Segundo a polícia, as vítimas ouvidas nesta terça na delegacia não foram estupradas, mas todas tiveram os dedos chupados. Algumas delas reagiram ao ataque gritando e conseguiram espantar o tarado."

sexta-feira, outubro 13, 2006

Ladrões de sonhos?

Volto ao tema do avião da Gol que caiu em meio à selva amazônica. Volto não para discutir o caso em si, a dinâmica da colisão, o espanto e tristeza de muitos ou a culpa desse ou daquele. No entanto o número de falecimentos serve como termo de comparação com outra coisa bem menos grave – porque ao menos intrinsecamente não envolve vidas – mas muito presente em nosso dia-a-dia e, bem ou mal, importante, visto que mexe com os sonhos e esperanças de tantos milhões de brasileiros semanalmente. Espero estar MUITO errado, mas estou intrigado.

Não sei se vocês notaram, mas nesse acidente morreram pessoas que diretamente ou indiretamente nós conhecemos. Eu, particularmente, não conhecia ninguém, mas entre aqueles passageiros estavam muitos conhecidos ou amigos dos amigos. Nessas duas semanas já ouvi (e li) muitas histórias e sem esforço, cito três presentes naquele vôo: um funcionário do cunhado de uma amiga minha; o ex-namorado de uma amiga do meu irmão; e um ex-dentista do meu pai, lá do Espírito Santo. Agora mesmo, ao ler o blog da Teresa, “La vie est belle” (link aí ao lado), tomei conhecimento de mais uma pessoa falecida no acidente que, afinal, é “amigo do amigo”.

Pois bem. Essa constatação fúnebre me levou a uma impressão que, se verdadeira, cobriria uma de nossas certezas basilares (como sociedade) com o manto negro do escândalo e da completa descrença (além do que, provavelmente traria consigo uma revolta de conseqüências inimagináveis). Faço, portanto, uma singela pergunta, mas que está a me afligir: alguém aí já conheceu um ganhador de mega-sena ou prêmio equivalente?

Parece algo desprezível e aparentemente até mesquinho frente àquela tragédia. Mas a possibilidade de existir um embuste torna a questão dramática. Espero que alguém diga ao menos “sim, tinha um sujeito no meu bairro, o qual eu nem conhecia mas todo mundo falou, que ganhou x milhões da mega-sena e sumiu, levou toda a família, etc etc etc”. Será possível que em tantos anos de quina (lembram-se?), sena ou mega-sena NINGUÉM conheça, nem de longe, algum nouveau rich da loteria? Espero que essa minha dúvida seja absurda e infundadíssima, mas dá um certo temor... Ocasionalmente surgem histórias sobre movimentos escusos em relação ao sorteio de “mega-senas” da vida. Sabemos que fabulosas somas de dinheiro costumam envolver interesses do mesmo quilate. Interesses que não medem nenhum tipo de conseqüência para dirigir os efeitos de acordo com sua vontade. Talvez sejam apenas boatos, como tantos que existem por aí.

Mas que é uma questão curiosa, isso é.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Paaaarabéns pra você!

Hoje é aniversário da minha mãe. É bom não ser mais um garotinho (como era na foto) mas, ainda assim, continuar a ter os pais aí, na área, firmes e fortes.

Mil beijos para ela e mil parabéns. Hoje não deu para encontrá-la mas amanhã é um feriado que sempre vem bem a calhar.

:-)

segunda-feira, outubro 09, 2006

De camisinhas, teletransporte e mais um pouco

No sábado fui com minha mulher a Belo Horizonte e notei que o acidente do avião da Gol ainda ecoa forte em mim. Ao terminar o check-in, a mocinha da TAM nos desejou um “bom vôo”. Caminhando rumo ao salão de embarque, fui divagando: “um bom vôo? Opa, se ela desejou um bom vôo é porque pode haver um ‘mau vôo’, não é?”. Matutando sobre o assunto, continuei, enquanto um camarada passava o detector de metais pela moedinha que levava num bolso e na fivela do cinto: “mas o que seria um ‘mau vôo’, então?”. Bem, como tinha uma fortíssima impressão sobre qual seria a resposta, resolvi deixar pra lá e ir folhear uns livros e revistas na La Selva. Cheguei são e salvo à capital mineira e agora estou de volta em casa. O desejo da mocinha se concretizou. :-)

É claro que um acidente, por mais brutal, doloroso e inconcebível que seja – como esse – não desmancha as certezas calcadas nas evidências. O avião é um meio muitíssimo seguro de transporte e, por sua própria natureza – trafegar tão “descolado” da terra firme – não teria alcançado o sucesso que tem se não fosse, desde seu primórdio – há cerca de cem anos! – um meio eficiente de deslocamento. Acontece que existe aquela frase célebre atribuída a Cícero, orador romano: “À mulher de César não basta ser honesta. Precisa parecer honesta”. Daí que não basta saber que aviões não caem. Todos têm que estar convictos disso.

-o-o-

E o debate desse último domingo? Não vi inteiro, apenas o trecho final. Mas parece que Alckmin se saiu melhor. As análises que li posteriormente dizem o mesmo. Mas está tudo tão misturado... Lula é apoiado por Sérgio Cabral Filho que é aliado (e tem como cacique estadual) o sr. Garotinho que, por sua vez, apóia abertamente Alckmin. E a Roseana Sarney que, sendo do PFL, apóia animadamente a reeleição de Lula?

Devo repetir meu voto em Alckmin, mas a gente fica olhando...

-o-o-

Notícias tre-pi-dan-tes da semana passada! Pela primeira vez cientistas (de algum país rico, naturalmente, mas que esqueci qual) conseguiram teletransportar (uhuu!) luz e matéria ao mesmo tempo. O objeto (não revelado) era macroscópico e foi perfeitamente transportado numa distância de 50 centímetros. Parece (e é!) pouco mas o teste anterior, há dois anos, tinha teletransportado alguns átomos por uma distância mínima, só captada por instrumentos.

Essa coisa de teletransporte parece assunto de ficção científica e fico imaginando um futuro, com viagens instantâneas, pulando daqui pra lá e vice-versa (hum... será que vão aposentar os aviões?!).

No mesmo dia em que li sobre o teletransporte, chegou-me outra notícia típica de ficção fantástica mas “levemente” menos plausível. O anúncio veio por e-mail, convidando para um evento que aconteceria na sexta-feira passada, dia 6, em Niterói. Transcrevo aqui alguns trechos: “O renomado escritor e conferencista espiritualista Jan Val Ellam, pseudônimo de Rogério de Almeida Freitas, fez revelações bombásticas recentemente à revista UFO, sobre o futuro do planeta Terra. Segundo informações a que ele teve acesso, originárias de seus mentores espirituais e extraterrestres, um grande momento para a raça humana se aproxima: o contato oficial e definitivo com civilizações cósmicas superiores. O processo já estaria em curso e centenas de naves se aproximam da Terra para grande manifestação nos próximos meses. ‘Tudo ocorrerá entre novembro de 2006 e abril de 2007’, disse Ellam em sua longa e detalhada entrevista. VENHA DEBATER ESTAS REVELAÇÕES E SUAS REPERCUSSÕES. 6 de Outubro (sexta-feira), das 18:30 às 22 Horas. Rua Miguel de Frias, etc etc etc”.

Eu adoro a passagem “centenas de naves se aproximam da Terra”. Beleza, vou largar tudo e esperar nossos amigos “ET phone home”. Anote aí na sua agenda. Vai ser uma loucura!

Para terminar, vejam que notícia mais contra a corrente (e é claro que ao final o jornalista diz que mais importante que a satisfação é a saúde, blábláblá, mas o que interessa já foi dito): trabalho de pesquisadores de uma universidade-de-algum-país-rico (o qual também já esqueci o nome) descobriu que as mulheres cujos parceiros transam SEM camisinha são mais felizes que aquelas que transam com parceiros COM camisinha!!! acontece que o motivo é bem mais “científico” do que se pode imaginar à primeira vista. De acordo com a pesquisa, a mucosa vaginal é capaz de absorver hormônios presentes no sêmen e que aumentam o bem-estar feminino.

Agora essa... Mesmo com todo o perigo que existe essa notícia pode ser mais um elemento argumentativo daqueles que são contra quaisquer meios de contracepção artificial. Que coisa...

terça-feira, outubro 03, 2006

E a eleição, hein?

Sempre que ocorre algo negativo ou pelo menos diferente aparece muita gente para dizer “ah, só no Brasil para acontecer uma coisa dessas” ou, no mesmo mote, “esse país não é sério mesmo” e ainda “que povinho!”. Neste momento o motivo das exclamações é a eleição de algumas figuras "peculiares", famosas por outros motivos que não propriamente sua íntegra atuação política.

Muito tem se criticado o enorme (e por isso multifacetado) eleitorado paulista por haver eleito para a câmara federal, entre tantos outros, o cantor Frank Aguiar, Enéas, Paulo Maluf e o mais lembrado, Clodovil (sim, ele, o estilista). Há também críticas pela eleição de Jader Barbalho lá no Pará ou do ex-presidente Collor para Senador, em Alagoas. Perante tais novas autoridades poderia ser dito que “brasileiro não sabe votar”. Mas e a contrapartida?

Os brasileiros também impediram Severino Cavalcanti de voltar para o Congresso, de onde saiu certo de que iria voltar pelas mãos de seu humilde eleitorado do sertão nordestino. No entanto... Outro menos famoso - mas não menos nefasto - que não voltou para Brasília foi o presidente do Vasco da Gama, Eurico Miranda. E a deputada dançarina (do PT de... SP!) Angela Guadagnin agora terá que procurar outra pista para demonstrar seus passos. Como esses, vários outros (a grande maioria dos envolvidos no escândalo dos sanguessugas, por exemplo), não foram eleitos. Então nesse caso o eleitorado foi sábio e nos outros não? Não acho nem uma coisa nem outra. A eleição de figuras de vulto nebuloso ou “estranhas” ocorre em qualquer lugar. Países de primeiro mundo elegem ultraconservadores de direita (França) ou até mesmo notória prostituta como nos anos 80 na Itália – Cicciolina. Já os norte-americanos votaram pela reeleição de George Bush mesmo depois da “guerra” (prefiro “invasão”) do Iraque. Que tal?

O exercício do voto é sempre positivo e nos faz bem como povo e Nação. Embora com tanta decepção e choques com sucessivos escândalos, os brasileiros têm interesse e confiança na mudança para melhor através do voto. Isso ficou claro no baixo índice de abstenção ou perda do voto (principalmente em comparação com a campanha que alguns fizeram pelo - inútil - voto nulo). O segundo turno será bem-vindo, tanto em âmbito estadual (aqui no Rio e em alguns estados) como no federal. Vamos assistir, discutir e tentar melhorar nosso país.

domingo, outubro 01, 2006

Por tão pouco...

Em primeira mão, as fotos do Legacy na base aérea no Mato Grosso. Na foto superior o winglet danificado pelo choque com o 737 da Gol.

(winglet: aerofólio montado na ponta das asas de alguns aviões com a finalidade de diminuir a turbulência criada a partir daquele local devido ao deslocamento da aeronave. A turbulência aumenta o arrasto - força contrária ao deslocamento - resultando em maior consumo de combustível)

sábado, setembro 30, 2006

Gol contra, é claro

Iria escrever sobre o voto, sobre nossa responsabilidade cívica, sobre a importância de - ao menos! - lembrar em quem votou e acompanhar de veeeez em quando seu desempenho no cargo eletivo. Mas, embora a eleição de amanhã seja tão importante para a vida de todos, o acidente de ontem encerrou a vida de vários, acendeu a inquebrantável tristeza de diversos e aumentou a sempre presente apreensão de inúmeros.

Trabalho com várias pessoas que têm pânico de avião, muito medo de voar mesmo. Insisto em estatísticas e notícias extremamente - absolutamente! - favoráveis à aviação; milhares e milhares de pessoas morrem por ano nas estradas do Brasil "e" - pergunto a eles - "nos aviões, quantos, ah?" respondo eu mesmo, todo pimpão: "ninguém!!", afirmando a seguir que talvez, talvez, apenas os elevadores sejam meios de transporte mais seguros que aviões. Bem, mas tudo isso virou uma inverdade? não, claro que não. Me sinto muito mais seguro ao adentrar em um avião do que na Linha Vermelha, até o aeroporto, ou na BR-080, até Belo Horizonte. E me sinto seguro não por causa de algum patuá que leve no bolso ou devido ao glamour aeronáutico: me sinto seguro porque É mais seguro, ora!

Mas agora, depois dessa, depois de uma colisão (!) a 11.000 metros de altitude (!!), vai tentar convencer àqueles que têm medo, de que aviões não caem... (Mas não caem mesmo; são derrubados, o que faz muita diferença. Tem que "fazer muita força" para fazer um cair; tanto que o Legacy conseguiu pousar) De toda forma e modo, um episódio muito triste. E improvável.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Notas musicais

Dando prosseguimento à minha carreira cambeta de crítico musical que teve início recentemente com meu desalento quanto a "Carrossel" do Skank, prossigo com o lançamento (de alguns meses atrás!) "Universo ao meu redor" de Marisa Monte.

Conhece? então já escutou uma infinidade de vezes. Não conhece? pare, pare tu-do o que estiver fazendo e saia agora em desabalada carreira para a loja mais próxima. O que, já é madrugada? peça a algum conhecido que tenha uma loja de discos para abri-la! ah? não tem conhecidos proprietários de lojas de disco? interfone para todos os vizinhos do prédio, da rua, bata de porta em porta! implore para que alguém lhe empreste o disco mas não fique nem mais um minuto sem escutá-lo!!!

Logo quando foi lançado me disseram que era muito bom e que ele tocava sem parar no CD do carro. Resolvi baixar pelo emule (ops...) mas deixei quieto numa pasta, meio que esquecido. Que falha, que erro, que lástima! (que cara dramático!)

Mas, sério: é um disco bom demais. Daqueles que acalmam a alma, você vai ouvindo a Marisa afinada e suave, embalando o dia. Nota 10+. (Ah sim: esse é do tipo "baixe na internet, teste e depois compre o disco")

-o-o-

Hoje à tarde estava ouvindo uns antigos sucessos do Pet Shop Boys. "West End Girls", "Always on my Mind", "Domino Dancing", "Alright" (titititi...). Uma época maravilhosa, o mundo tinha sido construído para nossa fruição, tínhamos certeza disso. "Left to my own Devices" me lembrou muito (aquela coisa de voltar no tempo) um dos melhores reveillons que já tive, numa fazenda em Minas Gerais, em Volta Grande - há muito tempo, noutra era geológica.

-o-o-

Não é uma nota musical mas não deixa de ser arte. Ontem fui apresentado ao "diabolo". Adorei, interessantíssimo. Como não tinha muita intimidade com ele, pouco consegui produzir. Se quer saber do que se trata, vá ao youtube e digite "diabolo". Negocinho bacana...

Sem muita paciência

Na volta para casa, no táxi, conversando com o motorista sobre manutenção de carro, visto que seu táxi era novo e bem cuidado. O condutor afirma:

- Para mim, carro é como mulher, lido com os dois da mesma forma.

Antes dele continuar, imagino que dirá que, como com uma mulher, o carro deve ser bem tratado, bem cuidado para, no caso do veículo, te levar em segurança para onde você quiser, etc, etc. Mas que nada...

- É como mulher. Não consigo ficar com ele mais de um ano, um ano e meio... Depois já troco logo.

- Ahhh tá... :-)

domingo, setembro 24, 2006

Imbróglios cariocas

Nem só por fatos graves é formado o imbróglio deste balneário. Fico imaginando a confusão no prédio...

(coluna de Anselmo Góis, sábado passado)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Voyeurismo tupiniquim

Há, em âmbito nacional, duas polêmicas fervendo: a compra de um dossiê, por integrantes do governo federal, visando prejudicar o líder nas pesquisas paulistas para Governador, José Serra, e o vídeo em uma praia espanhola, estrelado por Daniela Cicarelli e seu namorado do momento. Como a primeira polêmica não escandaliza mais ninguém, visto ser apenas mais um capítulo de um lenga-lenga interminável (a novela “Até onde vai o PT”) vamos à segunda, muitíssimo mais interessante: as intimidades da mocinha, ex-mulher do fenômeno, que tem a boca desproporcional ao resto.

Ao assistir você ficou escandalizado(a)? ou melhor: você viu? Bem, eu vi. Vi, revi e... pô, não é tuuudo isso que estão falando. A praia era - aparentemente - pouco freqüentada e (o vídeo deixa claro) os dois tiveram o cuidado de se afastar do grupo com o qual estavam para começar sua... ah... dança do amor. Depois, resolveram entrar no mar e lá, com a maior discrição possível naquele cenário, prolongaram seu... enlace.

“Much ado about nothing” (ou quase nothing...), já disse Shakespeare.

terça-feira, setembro 19, 2006

"Uns dias chove, noutros dias bate sol" *

Cultivo uma suave pinimba em relação a certas expressões atuais que se tornam vícios de linguagem. “Vamos combinar” é uma delas (embora conheça gente boa que a use, vez por outra). “Vamos combinar”, além de ser usada a todo momento, me soa autoritária. O ouvinte não tem como mudar cláusula alguma do acordo; não é nada “combinado”. “Vamos combinar” é sempre uma introdução para uma sentença afirmativa, geralmente negando uma prática de um terceiro. “Vamos combinar que ela não está com essa bola toda!”; entendeu?

Não obstante (taí uma expressão clássica que gosto; “não obstante”...) essa introdução em repudio ao “vamos combinar”, ela nasceu justamente da vontade que tive em iniciar esse post com um “vamos combinar”. O motivo era comentar a Wikipédia. Iria começar - e enfim começo - com a seguinte constatação (viram? não estou querendo combinar nada! já estou constatando!): Vamos combinar que a Wikipédia tem utilidade mas também tem lacunas tenebrosas. Se não, veja só...

Iria escrever aqui sobre o clima no Rio de Janeiro, estranhíssimo nesses dias. Acordamos com tempo fechado, sem teto. Lá pelo meio do dia o céu está num profundo azul, um típico céu de outuno, temperatura amena. No entanto, se você caminhar um pouco que seja pela rua, começa a sentir calor (mesmo porque de manhã cedo colocou uma roupa mais adaptada àquele cenário chuvoso, invernoso). E aí você passa pelo Aterro e está cheio de ipês-rosas, com aquele tapete cor-de-rosa em volta, uma beleza. Tanta variedade de climas e cenários me fez imaginar que a cada dia estávamos passando pelas quatro estações e voltando a elas no dia seguinte. A idéia de “quatro estações” me lembrou a composição do músico italiano Vivaldi e achei que seria um bom tema para introduzir aqui no blog, o clima no Rio e, agora sim em maíusculas, “As Quatro Estações”. Procurando buscar maiores informações sobre a obra, entrei no Google. Está lá, em inúmeros sites, a famosa e popular obra de Vivaldi. Confiando na Wikipédia, escolhi a opção que aponta para a conhecida “enciclopédia livre”.

Pois, saiba: se você quiser encontrar alguma coisa sobre “As Quatro Estações” pela Wikipédia em português só vai ter informações sobre o quarto e homônimo disco do Legião Urbana! você ficará sabendo de vários detalhes sobre as composições de Renato (Russo) mas nada sobre o músico (italiano) do século XVIII. Se for um pouco persistente, terá que descobrir o nome original da obra (“le quattro stagioni”) para encontrar, finalmente, pouquíssimas linhas sobre o concerto barroco de Vivaldi.

A lição é aquela já antiga: tenha parcimônia com fontes na Internet; use a Wikipédia com seus instintos controlados; leve seu guarda-chuva consigo ao sair à rua e um casaquinho contra o frio, além de uma blusa apresentável por baixo. Nunca se sabe quando o tempo vai mudar...

* de "Meu caro amigo" (Chico Buarque)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Dentro da novidade, uma coincidência

Ao escrever no título "novidade", lembrei-me da música homônima dos Paralamas & Gilberto Gil. "A novidade veio dar à praia / Na qualidade rara de sereia / Metade o busto de uma deusa Maia /Metade um grande rabo de baleia". Minha inovação não causará tanto espanto como o encalhe da sereia mas que é novidade, é!

Tive a idéia de criar exatamente aqui ao lado direito do post uma nova seção: "melhores momentos do imBLOGlio". É claro que tais "melhores momentos" vêm da minha interpretação personalíssima. É claro, também, que escrevemos coisas que julgamos ter alguma relevância. Daí que o que não consta em tal lista não descarto sob o título "bobagem" ou coisa que o valha. Na verdade há textos bem interessantes mas, cada um por seus motivos, não achei de tanta importância no momento. Ser datado, por exemplo, é um desses motivos excludentes.

A lista começa com a "livre adaptação", primeiríssimo texto do blog, num momento em que ninguém o conhecia. Decidi começar por ele (e agora incluí-lo como "melhor momento") pela diversão que tive ao elaborá-lo. Ele é, na verdade, um texto pré-blog. O escrevi há mais de um ano, numa época em que, nos momentos de total ócio, resolvia escrever histórinhas. A "livre adaptação" foi uma delas.

"Liberdade..." e "Estrada Real..." são textos que fiz com bastante emoção; ambos falam de Minas Gerais e minhas observações de pseudo (e atrasadíssimo) bandeirante.

Procurei incluir nessa lista o mínimo possível de textos "tristes", por assim dizer. A forte exceção é "As dores do Brasil". Foi escrito em homenagem a um rapaz desconhecido mas que seu destino, ao meu ver, sintetiza os desmandos que acontecem no Brasil.

Falando em pouca dedicação, "Falta de compromisso..." poderia ser rotulado como "datado" já que foi escrito horas depois da eliminação da seleção de futebol na Copa do Mundo. No entanto procurei expandir o significado de sua mensagem e acredito que o resultado tenha sido, ao menos, razoável.

O texto sobre aniversário (que, curiosamente, não tem título) foi escrito em terceira pessoa e acho que criei um cenário - facilitado por uma foto - bem próximo à realidade.

Enfim, são textos do imBLOGlio feitos até cerca de um mês atrás. Os muito recentes não inclui - daqui há uns meses tentarei aumentar a lista (se escrever algo que valha a pena no período). Espero que esse revival ofereça àqueles que os lerem o mesmo interesse e prazer que tive ao escrevê-los.

P.S. A coincidência foi que, enquanto relia os textos, me dei conta de que o blog completou seis meses de vida há poucos dias. É, portanto, uma novidade que marca essa data.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Procuro um vestidinho preto indefectível

Vez por outra vivo um breve e pequeno dilema. Aparece um disco (ops, coisas da idade, i’m sorry), um CD novo qualquer - ou mesmo um antigo, mas de meu interesse - e logo aciono o computador, abro o eMule e, dentro em pouco, já tenho todo o repertório em meu hard drive, prontinho para fazer parte da compilação do ipod. O dilema é: “mas isso não é justo com o compositor/cantor/grupo musical. É quase como comprar CD pirata na calçada”. Há algum tempo tive uma conversa sobre esse assunto com uma amiga que estava se sentindo culpada de haver baixado o novo disco (ah, vai “disco” mesmo) da Marisa Monte e, por ser tão bom, queria comprá-lo - como um agradecimento à cantora. Podemos argumentar que o preço de um CD é um absurdo e as gravadoras são milionárias. Mas por outro lado, o CD do camelô é algo que não paga imposto, é fruto de roubo ou contrabando, etc etc e, ao final das contas, é um gol contra a nossa, por vezes, precária economia. Mas além dessa justa questão há outra: e se (no caso de um lançamento) o CD for uma droga !?!?...

Passei por todo esse questionamento enquanto as músicas de “Carrossel”, novo álbum do Skank, eram baixadas. Gosto do grupo mineiro e vejo qualidade em várias coisas que já fizeram. O DVD/CD ao vivo em Ouro Preto é excelente, por exemplo. Como não lançavam nada já há algum tempo, a notícia desse novo trabalho me chamou a atenção...

Bom, o disco pode até virar um grande sucesso (sabe lá...), mas achei fraco. Todo disco é lançado com um número determinado de músicas mas outras tantas, compostas naquele período anterior ao lançamento, ficam de fora por vários motivos. Parece que esse novo álbum é o refugo de todos os discos que já lançaram até agora. Melodias chatas e letras... bem, letras indigentes! Estão rimando chão com não (“as garrafas jogadas no chão, as garotas vestidas ou não...”), pessoa com ressoa (“...no coração da pessoa, para fazer brilhar como um farol o som depois que ressoa”), bolso com rosto, (“quando caio do seu bolso, escorrego pelo rosto”; ah??) ou ainda apelando novamente para o “não” (fazer rima assim até eu...) em “O som da sua voz”: “Não me deixe na chuva, não. Não me tire do coração...”.

Concluindo: como o Skank 1- “tem gordura para queimar”, pelos sucessos anteriores e 2- é apoiado por uma grande gravadora, algumas músicas talvez até façam sucesso mas, num primeiro momento tive uma certa decepção (vai ver tudo isso é reflexo do astral do Samuel Rosa, já que ele disse outro dia estar desapontado com tudo e que não adiantava fazer músicas contestatórias porque nada mudaria mesmo). Então a mensagem de "Carrossel" (que é algo que roda, roda e não sai do lugar - será uma dica?) me parece: "não adianta me esforçar com 'pacato cidadão'... Então vai qualquer droga mesmo".

segunda-feira, setembro 11, 2006

O Folhetim de Terezinha

O primeiro lhe falou da imensidão do universo, explicou-lhe coisas sobre o espaço, a geologia e a atmosfera, explanou sobre teorias gerais e especiais, falou sobre o ano-luz e a relatividade do espaço e do tempo, comprovando que, em tese, poderia voltar àquele momento inicial em que a viu, asseverando que tal instante cristalizou-se em seu coração e mente.

Terezinha se afastou.

O segundo, bem romântico, comparou o brilho do luar com a luz de seus olhos. Jurou que, mesmo sem ter seu corpo por perto, a Lua e as estrelas, tão distantes, o fariam sentir-se mais perto dela. Afirmou com convicção que sabia que todo o cosmo havia sido confeccionado especialmente para aninhar sua existência e que seu amor por ela era o quinto elemento que faltava na natureza.

Terezinha declinou.

O terceiro disse que não se interessava em falar sobre o luar ou corpos celestes, amores ou teoremas. Mas confirmou que as estrelas e a Lua eram facilmente visíveis de sua cobertura na praia e que, se ainda assim fosse difícil vê-las, poderiam embarcar em seu jato e ir para uma de suas fazendas ou mesmo para a Polinésia Francesa, de onde ele jurava ser muito fácil ver o céu.

E porque a vida é dura e complexa, para esse Terezinha deu a mão.

-o-

(Terezinha até diria "sim" para outros, mas não era daquelas que se dariam apenas "por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema ou um botequim"; muito menos aceitaria "só uma prenda, ou qualquer coisa assim, como uma pedra falsa, um sonho de valsa, ou um corte de cetim"... Fred e suas citações buarquianas.)

terça-feira, setembro 05, 2006

Quando amanhã vai chegar?

O esguio e elegante jato ERJ-145, apelidado de “jet class” pela VARIG, decolou do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, rumo ao Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont. Estar naquele vôo, numa terça-feira de manhã, voltando de Minas Gerais, era algo completamente incomum mas o motivo foi relevante: o aniversário de minha (então) noiva havia sido na véspera e como iríamos nos casar dentro de menos de um mês, achei por bem estar junto à minha futura mulher, comemorando aquele último aniversário de solteiros. Dessa forma, estiquei o final de semana, conseguindo no tribunal permissão para não trabalhar na segunda-feira.

Já estava tudo pronto para o casamento (ou quase tudo): a viagem estava comprada, o apartamento reformado, a cerimônia e festa (em Belo Horizonte, naturalmente) faltando apenas detalhes. A vida seguia firme, estável e, a despeito da ansiedade crescente pelas núpcias, estávamos tranqüilos. Firme e estável, também, seguia o pequeno avião, em seu percurso de aproximadamente 50 minutos até o Rio de Janeiro.

Na hora certa, algo depois das nove, o avião tocou o solo carioca. Taxiou, parando a poucos metros do histórico prédio do aeroporto. Muitos podiam achar desconfortável aquele trajeto a pé entre a aeronave e o terminal mas eu adorava, quanto mais em um dia como aquele, com o céu profundamente azul, o suave sol de setembro aquecendo com delicadeza a cidade. Observei o Pão de açúcar enquanto caminhava, a cidade merecendo o antigo título de maravilhosa.

Após pegar na esteira minha bolsa de viagem, fui para a fila do táxi. Tinha que ir trabalhar, mas como morava próximo ao centro, no Flamengo, decidi passar em casa antes. Mantive algum assunto banal com o motorista, talvez sobre o tempo no final de semana, talvez sobre futebol. Sobre nada mais falamos pois era, afinal, uma terça-feira qualquer.

Ao chegar em casa, cumprimentei usualmente o porteiro. Morava sozinho e, por isso, ninguém me esperava, a não ser o telefone que – por acaso? – tocava naquele momento. Atendi. Do outro lado, o velho amigo, Cayo, esbaforido: “Fred, você sabe o que está acontecendo??”; “Não, não sei. O quê?”; “Você NÃO SABE o que está acontecendo ??!?!?!!!!!!”; “NÃOOO!!! Eu-não-sei!!! O que está acontecendo?!; “MAS VOCÊ NÃO SABEEE !?!?!”. (De verdade, pensei: “meu deus, alguma tragédia colossal, mas em um dia assim?!”). “Cayo, eu NÃO TENHO IDÉIA sobre o que esteja acontecendo! Me diz logo!!!!”; “Liga a televisão”.

Há poucos minutos o segundo avião havia atingido a torre sul. Todos os canais repetiam a cena. Era muito estranho: algum piloto havia errado e batido em cheio no World Trade Center. Mas outro iria errar logo assim em seguida?? Imediatamente o mundo se deu conta de que não havia acidente algum e sim a implementação do terror como divisor de águas. Aquela linda manhã no Rio de Janeiro e em Nova Iorque marcava o primeiro dia de uma época de medo, ódios e preconceitos, mesclados à desconfiança e incerteza.

Quando tudo aconteceu, eu estava dentro de um avião, placidamente voltando para casa. Foi um dia tão marcante que nos faz lembrar de tudo o que fizemos, o que pensamos e sentimos. A clareza daqueles momentos em nossa mente dá a impressão de que não se passaram cinco anos. E, de fato, para mim, aquele 11 de setembro de 2001 continua até hoje e não há a menor previsão de que consigamos cruzar a meia-noite.

(tirei a foto que aparece no início do texto em setembro de 1995. Quem poderia imaginar aquilo ali, exatos seis anos depois?...)

domingo, setembro 03, 2006

Shy moon, hiding in the haze / I can see your white face

Olá, peço desculpas pela ausência. Estou devendo um post sobre o tema "trabalho", como escrevi no final dos comentários do taciturno texto anterior.

Vou escrever, já há um rascunho pronto (mas estou um tanto sem inspiração para desenvolvê-lo e – oba, uma coisa positiva! – ando envolvido com a troca do meu carro. Pois é, nós, meninos, costumamos dar muita atenção a essas coisas. Já ouviu aquela história sobre o que muda é o preço dos brinquedos, não ouviu? pois é). O tema “trabalho” não tem nenhuma relevância direta por esses dias (não é dia 1° de maio, por exemplo), mas existe uma questão que costuma me intrigar e quero contar. Em breve.

-o-o-

Já que dei uma dica gastronômica dia desses (sobre a pizzaria no hotel intercontinental), dou outras, por onde passei essa semana. Comida oriental (chinesa e japonesa) em serviço tipo buffet, com preço e sabor bem camaradas: térreo do Rio-Sul, restaurante Taiping (dica: peça os espetinhos de camarão e frango, além de giozas, que não estão expostos mas fazem parte do Buffet, assim como as sobremesas). Outra: menos popular porém de alta qualidade, a Casa da Suíça, ali na Glória. Fondues de tipos variados e inspiradora carta de vinhos.

-o-o-

Algum assistiu ao jogo do Brasil e Argentina? Tivessem jogado assim na Copa e eu não precisaria ter escrito aquele texto após o jogo contra a França .

(a foto lá em cima não tem a ver com esses assuntos. No entanto, gostei da noite com a Lua envergonhada – Shy Moon – escondendo-se atrás da Pedra da Gávea. Achei-a bonita e resolvi compartilhá-la. É claro que fica mais atraente em um tamanho maior, mas esse já dá uma idéia, ao menos)

quarta-feira, agosto 30, 2006

Hope you guess my name

Sei que as pessoas, em geral, não querem entrar em blogs para se estressar com assuntos graves. Há uma natural predileção por questões leves e, de preferência, recheadas de humor. Mas hoje não vou corresponder a essa espectativa.

Preciso falar sobre isso que se vê na foto acima, capa do jornal O Globo dessa terça-feira. Sei que tal cena se repete diariamente no mundo e, em especial, no Rio de Janeiro. A diferença é que na maioria dos casos não há a lente da imprensa – ou lente alguma. Como a Pietá, a mãe chora a morte do filho, em sua dor inconcebível. Poderão dizer, como autodefesa: “É uma tragédia mas, ah, acontece a todo momento e sabe-se lá o motivo do assassinato. Ouvi dizer que foi encomendado...”. Sim, nossos corações se petrificam para manter algum equilíbrio na mente já que insistimos em conviver com a insanidade dessa sociedade toda errada, ao avesso, revirada, amarfanhada, mofada.

Mas, espere, o dia não terminou! à tarde, completou-se a barbárie; chegou nova notícia: na noite de segunda-feira as pernas de uma mulher, empresária, foram encontradas em um saco, em botafogo. Ao lado, sua bolsa, com todos os documentos e pertences, para haver certeza de que o fragmento de corpo seria rapidamente reconhecido, como se o homicida dissesse “sim, não tenha dúvida. É ela”. “Ela”, uma senhora de 50 e poucos anos que havia sumido desde a manhã de segunda. A família estranhou quando ela não apareceu no aeroporto às 18:30 horas para se despedir da filha que foi passear em Buenos Aires. Perto da meia-noite, o pai, junto ao que encontrou da mulher, liga para a filha na Argentina e transtornado, de acordo com o jornal, explica: “Aqui está tudo mal; sua mãe está morta”.

Ao motivo, ao modo, à execução do fato, nem quero me ater. Penso apenas em questionar sobre “onde vamos parar” mas, posso me dar ao luxo de achar que ainda há um destino? já não chegamos à estação terminal? há algo além? o que há por baixo disso? há lugar pior, há dor mais lancinante? há pesadelos mais sombrios, desamor mais profundo, desapego à vida alheia mais abissal? Ah... não... quero me desvencilhar desse assunto, não posso me concentrar.

Me vêm à mente “Sympathy for de Devil” e “Welcome to the Jungle”. Por ora, não é nada mais além disso. Sinceramente, me desculpe.

Please allow me to introduce myself / I'm a man of wealth and taste / I've been around for a long long year / stolen many man's soul and faith // Pleased to meet you / Hope you guess my name... / But what's puzzling you / Is the nature of my game (Por favor, deixe-me apresentar / Sou um homem rico e de bom gosto / Estive por aí por muitos anos / Roubei a alma e destino de muitos homens // Prazer em conhecê-lo / Espero que adivinhe meu nome... / Mas o que está o intrigando / É a natureza de meu jogo)

Welcome to the jungle / We got fun 'n' games / We got everything you want / Honey we know the names / We are the people that can find / Whatever you may need / If you got the money, honey / We got your disease (Bem-vinda à selva / Nós temos diversões e jogos / Nós temos tudo que você quiser / Querida, sabemos os nomes / Nós somos as pessoas que podem encontrar / Tudo o que você precisar / Se você tem o dinheiro, querida / Nós temos sua doença)

sábado, agosto 26, 2006

Assuntos diversos

Lembrei, na hora que vi, do velho e conhecido ditado "quem foi rei nunca perde a majestade". Nessa sexta-feira foi transportada pelas ruas do Cairo uma gigantesca estátua (83 toneladas de mármore purinho...) de um dos maiores faráos do Egito, Ramsés II. A estátua, que ficava em uma praça central da cidade, foi deslocada em um monumental cortejo, por 35 km, para uma área próximas às famosas pirâmides, fora da capital. O motivo: a poluição que, constataram, estava degradando o tesouro. Imagino que Ramsés nem iria se surpreender se soubesse que sua estátua estava tão cercada de cuidados 3.300 anos após a sua morte. Afinal, ele era o faraó. Incrível...

-o-o-

Li no Globo de hoje uma frase que espelha a pura verdade dessa nossa terinha: "é mais fácil cassar um planeta no Universo [plutão] do que mensaleiros e sanguessugas em Brasília". É uma falta de vergonha ALIADA (e isso é importante!) à falta de brio de todos nós, brasileiros. Há movimentos correndo aqui pela internet e pelos blogs em especial, de revolta. Vamos ver no que isso vai dar. Posso estar bem errado, mas me parece que sem uma profunda ruptura "com o que está aí", nada muda. "Profunda ruptura" é coisa grave e poderia até fazer piorar. Por isso não sei se é o melhor caminho. Mas parece que atualmente qualquer opção é inócua.

-o-o-

Falando ainda sobre Brasil, mas com um enfoque menos "universal" (apenas internacional), e já que falei de cortejo e sobre as vicissitudes do nosso país, lembrei de duas histórias (uma lida, outra ouvida nessa semana) e que se reuniram em mim, demonstrando bem essa coisa de "terceiro mundo" x "primeiro mundo": nosso Presidente da República esteve dia desses no Rio; compareceu a um evento no Riocentro e, mais tarde, voltou até o bairro de São Conrado, onde teve um encontro com "personalidades" da política e cultura, na casa do ministro Gilberto Gil. Minha amiga Carla me contou que a comitiva presidencial, atravessando a Barra da Tijuca pela avenida das Américas ia fechando tudo, transformando o trânsito já lento (por conta de uma infinidade de sinais) em um enorme estacionamento fora de hora e de local. No dia seguinte leio no blog do jornalista José Meirelles Passos (http://oglobo.globo.com/blogs/passos/) uma história sobre como a polícia da Virginia (EUA) impediu que a comitiva de mr. Bush fechasse uma concorrida highway para que a limosine presidencial pudesse ir e voltar rapidamente de um compromisso naquele estado americano. A Casa Branca pediu, o serviço secreto, CIA e o escambau mas "nananinanão", disse a polícia local. O supremo mandatário norte-americano foi convencido de que, afinal, não seria uma boa idéia tal interrupção quando lembraram que isso poderia ter reflexos ruins nos noticiários de TV. Finalmente Bush fez o óbvio: pegou um daqueles helicópteros "estribados" (gíria mineira) nos gramados da White House e foi cuidar da sua vida lá na Virginia.

Sim, os EUA têm 1000 defeitos que podemos elencar aqui, rapidamente. Mas esse é o tipo de coisa que deixa o contribuinte e cidadão em paz e satisfeito. Enquanto isso, por aqui, vale mesmo o "sabe com quem está falando?". Ah, tristeza...

-o-o-

Engarrafamento de helicópteros, já que falei neles. São 12:05 PM, tarde maravilhosa de sábado; o tráfego nos helipontos da Lagoa está frenético. Os helicópteros passam pertinho daqui de casa e lá do outro lado da Lagoa observo a Rocinha, pedra da gávea, morro dois irmãos. "It's a wonderful [and complex] world"...

-o-o-

E também aproveitando que já falei em São Conrado e Rocinha, ontem à noite fui a uma pizzaria no hotel Intercontinental, aquele - para quem é do Rio e tem trinta e tantos/quarenta anos - da boate Papillon. Servem pizzas em sistema rodízio e tem um preço muito bom. O restaurante, dentro do hotel, chama-se "Varanda". Boa pedida para fazer bonito com o(a) namorado(a), mulher(marido), amigo(a) e outras classes de relacionamento que não ouso citar visto ser esse um blog sério e de família.

-o-o-

Vou daqui a pouco lá na Velox... vou me matricular... engraçado como fico um tanto apreensivo com isso; como se fosse uma nova fase da vida. Qualquer dia desses conto sobre as primeiras impressões (e dores).

quinta-feira, agosto 24, 2006

Cheio de graça...

Compulsando uma petição daqui, um recurso dali, descobri um nobre causídico com sobrenome “cusano”. Até aí, a despeito de possíveis analogias sonoras e gracinhas colegiais, é um nome, como outro qualquer.O problema aparece quando os membros da família são citados em grupo, ou seja, quando o nome é colocado no plural. Vira um pleonasmo. Uma redundância.

Uma “redondância”, por sinal.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Festa muito boa

A história que se segue é retrato fiel da realidade; aconteceu em um ponto de ônibus do Rio de Janeiro, há alguns anos.

Segunda-feira de manhã cedo, a moça chega ao ponto, repetindo seu trajeto diário para o trabalho. Perto dela, duas garotas conversam: “E a festa, hein?! Estava ótima, né?! O pessoal gostaram!”

Aquela dissonante discordância fez a primeira moça sair de seu torpor matinal, apurando a audição do colóquio: “O pessoal todo gostaram? O pessoal todo gos-ta-ram?” - assustou-se a outra menina.

A curiosa ouvinte sentiu alívio; aquele tosco engano gramatical seria consertado. No entanto, arrematou a garota, ainda indignada:

“O pessoal todo gostaram? pô, o pessoal a-do-ra-ram !!!!”

terça-feira, agosto 22, 2006

O conforto do frio

Não tenho predileção por esta ou aquela estação do ano. O calor do verão tem seu lugar no rol de programas e possíveis viagens (viagens!), naquele período que se estende das festas de fim de ano até a quarta-feira de cinzas, e o charme do inverno é anualmente bem-vindo, na serra e seus fondues ou, à distância, na neve e seus tombos. Fico com essas duas estações porque aqui no Rio é só o que há, praticamente. Há, sim, uma luz especial nos finais de tarde de outono mas passam tão rápidos... e já estamos no inverno. Já estamos? Bem, ao menos no calendário. O frio (entenda-se “frio de Rio de Janeiro”) tem andado envergonhado, tímido, recluso no extremo sul. Mas nesse domingo, para meu gáudio – e alívio – ele chegou.

Aparentemente aqui, em contraponto ao início do texto, coloco-me a dizer que gosto em especial do frio. Não, não; mantenho a afirmação inicial. O que acontece é que o friozinho no inverno e o calor de início de ano me tranqüilizam. O clima anda cada vez mais desconcertante e, ao mesmo tempo, extremado. O calor vem como um maçarico celeste e o frio é de mamute congelado em banquisa. Mas o pior é que quando se espera um, muitas vezes surge o outro. Quando o outro “é certo”, eis que o guarda-chuva (ou a camiseta) tornam-se inúteis. Esse frio "dentro de hora" me faz acreditar que as coisas continuam num rumo certo. Ao menos o clima.

É bom sentir esse friozinho que chegou à cidade. O vento entra assobiando pela fresta da janela, que insisto em deixar entreaberta para ouvi-lo e senti-lo. Estamos no inverno! Então que a estação faça por onde e o clima, repetindo-se ano após ano, seja um elemento de equilíbrio do mundo, como um filme repetido indefinidamente por uma criança, trazendo-lhe confiança e conforto.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Explique já essa selathirupavar!

Nós, brasileiros, temos essa mania de dizer que só existe “saudade” em português, que “saudade” é um termo intraduzível e, perfeito sofisma, isso comprovaria (?!) nossa tendência à nostalgia, às doces lembranças, ao banzo dos “bons tempos” e, no final das contas, demonstraria nossa suave alma, bem-humorada, com um malemolente descompromisso com as “agruras da vida” e inata predisposição para o bem-viver.

É claro que existem termos em qualquer língua que expressam essa lembrança nostálgica. Quando se fala que não se pode traduzi-la estamos observando o contexto cultural do termo, o papel em uma determinada cultura, muito mais que seu “habitat” gramático.

A agência Today Translations, www.todaytranslations.com, elaborou uma lista de "palavras difíceis de traduzir para o inglês". Entre elas está a nossa “saudade”. Temos, além dela (e aqui já transliteradas para o português): “radioukacz”, telegrafista dos movimentos de resistência no lado soviético da Cortina de Ferro (polonês); “ilunga”, pessoa que perdoa a primeira e a segunda ofensa mas não uma terceira (tshiluba, língua da família Bantu); “altahmam”, uma forma específica de tristeza profunda (árabe); “selathirupavar”, certo tipo de falta injustificada (tâmil; língua falada no sul da Ásia), entre outras.

Podemos saber o que significa o termo tâmil “selathirupavar” mas não conseguimos apreender o significado social, emocional, para seus falantes. Provavelmente “saudade” evoca em nós, emotivos latinos de língua lusa, reações diversas das que seriam registradas em indianos, malaios, vietnamitas, etc.

E pronto, chega de saudade.

Alô, alô ceresiano

Como deixei implícito há alguns posts abaixo, ao falar sobre Stephen Hawking, tenho interesse nas questões “fundamentais” para o Homem, procurando entendê-las por um viés científico (o que não significa dizer que rejeito as demais abordagens; geralmente escolho o método científico simplesmente porque, enquanto o pressuposto é válido, não se admite discussão. Se houver contraprova positiva, muda-se de entendimento. As outras abordagens sobre as “questões fundamentais”, embora não admitam discussão, acabam justamente por ensejar muita polêmica e nem sempre estou a fim disso).

Toda essa loquacidade é para dizer que me chamou a atenção o desenho estampado na primeira página d’O Globo de hoje, com a proposta para o “novo” Sistema Solar. Aquela gravura me fez divagar, sair das provocações, obrigações e provações do dia-a-dia e pensar onde vamos parar, em todos os sentidos.

terça-feira, agosto 15, 2006

Horário eleitoral gratuito

E tudo recomeçou. Podemos dizer que esse é o primeiro horário político dos tempos do blogue ou, ao menos, dos tempos da explosão dos blogues. Poderemos acessar blogs de conteúdo exclusivamente político ou nossos blogues “genéricos” e dialogar, discutir, descobrir a opinião dos outros. Mas, com ou sem blogues, sites, chats, spans ou que tais, a verdade é que esse horário eleitoral gratuito é uma droga.

Quarta-feira, 7:20 da manhã (ou melhor, para mim: “da madrugada”). Ligo o rádio do carro no caminho do trabalho para ouvir as notícias na BandNews FM. Levo um susto desavisado: tem um candidato querendo me convencer! Indignado e repleto de vã e irrefletida esperança, troco de estação. “Mas que nada”, diria o Sérgio Mendes. O candidato está em rede, o cidadão aqui tem a opção de ouvi-lo ou... escutá-lo! desligo. Avanço pelo Aterro pensando nas razões democráticas para tal abuso.

Voto obrigatório e horário eleitoral gratuito goela abaixo: por que esses anacronismos têm tamanha persistência?

domingo, agosto 13, 2006

O Cirque du Claudiô

Talvez você tenha lido e até visto alguma foto do lavrador de Juiz de Fora que veio para o Rio em uma carroça, com dois de seus quatro filhos, um de cinco e o outro de seis anos. Os outros dois, ainda menores que esses, ficaram em Minas com a ex-mulher. Para quem não soube, um resumo.

O lavrador mineiro Cláudio Márcio da Silva chegou há cerca de uma semana ao Rio de Janeiro após um mês viajando pela BR-040 desde Juiz de Fora. Cláudio enfrentou a longa jornada com pouquíssimos pertences e tendo que contar com a ajuda das pessoas que encontrou pelo caminho para conseguir alimento para si, os dois filhos e para a égua Darlene, companheira de longa data na roça e que foi incumbida de vir ao Rio de Janeiro transportando a família. Ao chegar ao Rio, Cláudio conheceu em um subúrbio uma jovem de 17 anos, grávida, que juntou-se à trupe. A presença de Cláudio chamou a atenção da imprensa e dos cariocas em geral, em vista da inusitada presença de um grupo mambembe descendo a movimentada avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, em uma carroça. A intenção de Cláudio era ir morar na Rocinha, no bairro de São Conrado. Em seu caminho rumo à famosa favela Cláudio descobriu que não teria como subir com sua carroça e égua e, em vista disso, fez o caminho de volta para o subúrbio, indo morar de favor em uma favela chamada “Pára-Pedro”, próxima à CEASA da avenida Brasil, conseguindo abrigo com um amigo que fez durante a jornada entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro.

Dentro do complexo panorama que compõe o Brasil, é curioso notar que ao mesmo tempo em que, de forma anônima e inocente, o grupo de Cláudio chegava à cidade grande, aportava no Brasil a companhia do Cirque du Soleil. Enquanto o grupo canadense vem, a reboque de sua imensa e merecida fama, apresentar o espetáculo "Saltimbanco", a trupe capitaneada por Cláudio chegava atrelada à égua Darlene, vindo tentar “vencer na vida”, como Cláudio afirmou à reportagem de O Globo.

No entanto, se o Cirque du Soleil mantém sereno controle sobre sua reputação e glória, não se pode dizer o mesmo de Cláudio sobre Darlene. Nesta sexta-feira o lavrador teve sua carroça e égua roubadas quando deixou-as presas apenas com uma corda, na CEASA, onde foi à procura de algum trabalho, sem imaginar que poderia ser assaltado.

A insólita e ingênua aventura do carroceiro sofreu um forte abalo. Levaram a “tenda” de seu grupo saltimbanco e agora sua inglória missão na cidade grande pode ter definitivamente terminado. “O show não pode parar” mas no caso de Cláudio parece que infelizmente nem teria como começar.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Day & Night

Saí pela manhã para reabastecer a casa. Orquídeas e bebidas para um jantar amanhã à noite e um cacto.

Sim, um cacto, esse da foto. Sempre quis um cacto, um cactinho, símbolo de resistência e adaptação, virtudes que devemos buscar sempre. Ele só precisa de água uma vez ao mês e mesmo assim é um ser belo. Modificou-se e criou uma beleza sua, ímpar. Como se não bastasse, sabe se defender como poucos.

"O cactinho é antes de tudo um forte", parafraseando Euclides da Cunha.

Night & Day

Ah, véspera de feriado... (dia do advogado, o famoso dia do "pendura")

Noite para espumantes, reflexão, relaxamento...

quarta-feira, agosto 09, 2006

"...E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido..."

Quando vi a foto no site do Globo Online, não pude deixar de associar. A imagem não deixa dúvidas. Está lá estendida no chão, com um plástico azul por cima, que deixa ver apenas parte do “corpo”. Por MUITA sorte o acidente não produziu nenhuma vítima além dela.

Ficou ali, caída no cimento duro, à espera da perícia, exposta às lentes dos jornais e ao olhar dos passantes. Ela, que em “vida” tanta utilidade mostrou, agora jazia inerte, um corpo frio, deslocada, desprezada.

A imagem da porta do Fokker 100 no pátio do supermercado é perfeita analogia do momento em que vive a aviação brasileira. Bancarrota: tarifas irreais, atrasos descomunais e, agora, acidentes. Caída por terra.

(o trecho de "Construção", pinçado para servir de título, me fez pensar nessa e em outras letras de Chico Buarque. Desse sujeito podemos falar, de boca cheia: sem dúvidas, o cara é um gênio!)

terça-feira, agosto 08, 2006

Passa a tranca! (e leva a chave)

Desde aquele terrível acidente em São Paulo, quando um Fokker 100 da TAM caiu momentos após decolar, causando a morte de quase 100 pessoas, eu fujo desse modelo como o diabo da cruz.

Tivesse apenas ocorrido esse acidente, seria uma tragédia isolada. No entanto, desde então, já houve vários acidentes com esse avião e fica claro que é um modelo inseguro, a despeito do que especialistas possam assegurar. A última novidade do Fokker 100 foi essa porta que saiu voando sobre São Paulo e caiu sobre o supermercado...

Houve um tempo, lá pelo ano 2000, em que eu ia muito a Belo Horizonte e, algumas vezes, tive que viajar nessa coisa. Se não me engano, foi na última vez em que andei nele: estava sentado junto à saída de emergência, sobre a asa. Nessa saída o Fokker 100 possui uma pequena tampa, voltada para o interior do avião, que, presumo, cubra uma alavanca de acionamento da porta (como aquelas junto às janelas de ônibus ou nos vagões do metrô). Imagino que, em caso de emergência, essa tampa deva ser arrancada de seu ponto de fixação a fim de que o passageiro ou tripulante possa acessar a tal alavanca. Eu, que já estava grilado de estar ali dentro, me sentindo num autêntico esquife voador, fiquei ainda mais incomodado ao constatar que (segure-se aí) a peça estava presa à porta por um inacreditável aramezinho, daqueles cor-de-cobre! sim, é verdade; o suporte deve ter-se quebrado e a TAM colocou ali um arame todo enroscado, como na vedação dos sacos de pão de forma...

Diriam que aquilo não afeta em nada a segurança do vôo, do que eu não duvido. Mas aplico uma regra do comprador de carro usado ao arame no avião: se a parte a que tenho acesso, a parte que vejo, a parte que está exposta, apresenta algum defeito ou mau-trato, imagine o que está oculto!

Me surpreende que um avião desse ainda voe. Mas também, quem quer viajar de avião no Brasil a cada dia tem menos opções... daqui a pouco virão os Electras, Constellations, DC-3... Aliás, estou cometendo uma impropriedade: esses aviões, embora antigos, foram muito mais seguros que esse – toc toc toc, isola! – Fokker 100.

(E aqui nem podemos ter o consolo de traduzir esse temor como “ih, ele tem medo de avião!”; pelo contrário. Andei várias vezes em aviões de apenas dois lugares e nasci voando por aí. Mas é aquele ditado, “bonitinho”: quem tem... tem medo!)

Bom dia Sol, bom dia flores...

Os dias voltaram a ficar lindos, ensolarados e com clima ameno. Hoje acordei umas seis e pouco e as montanhas, lá pro outro lado da lagoa, com o Sol nascente, estavam com aquela cor entre cobre, laranja, rosa, uma lindeza...

E a lua cheia? tem visto? Se põe lá por cima da Rocinha e durante a madrugada tem formado um grande disco alaranjado. A despeito dos problemas que sabemos existir, a imagem é muito bonita. Andei relendo uns textos de Stephen Hawking sobre a teoria geral da relatividade, a mecânica quântica, o tempo, o espaço. Olho pra essa lua cheia e penso nisso! que coisa mais sem romantismo!!

Mas está tudo ótimo, está tudo bem.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Pele Rubro-Negra

Vencemos a Copa do Brasil mas eu, rubro-negro que sou, acostumado às conquistas, nem comentei nada aqui (sabe como é, coisa normal não é notícia...). Mas aproveito para citar o Campeão do Mundo no lançamento dos novos uniformes nesta quinta-feira. Os uniformes têm a mais moderna tecnologia em seu tecido e seguem a linha da camisa da Seleção, com uma frase emblemática na parte inferior frontal. No caso do Flamengo é o já tradicional “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”.

Na foto, Bruno Mezenga, jogador criado nas divisões de base rubro-negras, promessa para futuros títulos, posa com o novo uniforme. Atente para o detalhe da “pele rubro-negra” sob a camisa, expressão cunhada pelo grande Júnior anos atrás.

Avante Mengão!

quarta-feira, agosto 02, 2006

(outra) Casa vazia

Da casa vazia, onde o tempo já passou, salto para outro vácuo. Você já ficou sozinha(o) em um grande escritório vazio? em uma grande loja? e em um tribunal?

Quase oito da noite, hora de ir embora. Boa parte das luzes do tribunal já se apagaram e a impressão é que até a rua já está às escuras. Não se ouve nada além do barulho de fundo do ar condicionado pelos dutos escondidos no forro do teto, o zumbido silencioso dessa máquina onde escrevo e vez por outra o sinal de algum elevador parando nesse andar. Não há ninguém nas mesas, nos corredores, nas escadas, nas filas. Absolutamente ninguém. Numa hora dessa até os ascensoristas já seguiram seu destino de volta para casa, final de uma jornada.

Meu trabalho planejado para o dia já foi feito, amanhã cedo tem movimento, vamos impulsionar os processos de sabe lá quantas pessoas, caminhando rumo à solução. "Solução dos conflitos", "dizer o direito", julgar, condenar, executar os inadimplentes. Somos os dedos da longa mão do Estado alcançando a todos.

Essa é a história sobre como resolvi chegar mais tarde no trabalho - porque precisava executar coisas da vida - mas esqueci de avisar aos demais.

terça-feira, agosto 01, 2006

Casa vazia

No início dos anos 90 o escritor Stephen King, autor de diversos livros cujas histórias já foram transpostas para o cinema e TV, escreveu um conto chamado “Os Langoliers”, publicado com mais alguns em uma coletânea intitulada, no Brasil, “Depois da meia-noite”. King, como se sabe, é um escritor de enorme sucesso mundial, comumente descrito como “um mestre” das histórias de terror, com elementos sobrenaturais e suspense. Lembrei de “Os Langoliers” nesse final de semana, em Minas Gerais. Explico o porquê. (E não, não vi fantasmas nem entidades do gênero. Desde já alerto àqueles porventura descrentes, medrosos ou ansiosos que é coisa bem mais frugal; mas me lembrou a tal história).

“Os Langoliers” é uma bem acabada visão fantástica da passagem do tempo e que, com a batuta de King, toma ares fantasmagóricos. A idéia apresentada pelo autor é de que o tempo (e a realidade, a tiracolo) seriam como aqueles rolos de filmes, com fotogramas dispostos lado a lado e que, sendo apresentados em rápida sucessão, dão perfeita sensação de movimento contínuo. A única diferença é que a realidade seria as imagens fixas dos fotogramas e nós, os humanos e demais seres vivos, iríamos passando, “pulando” de uma imagem para a outra. Até aí sem problemas, mas acontece que o “rolo do filme da realidade” não existiria por completo a cada momento. Os fotogramas seguintes ao atual (o futuro próximo) iriam aparecendo aos poucos, à medida que o presente fosse avançado e, da mesma forma, as imagens do passado iriam sumindo. Imagine um rolo de filme com uns 50 centímetros e uma pequena lanterna iluminando o primeiro quadrinho. Enquanto desloco o foco para a direita, as imagens seguintes vão aos poucos sendo iluminadas e aquelas que ficaram para trás caem na penumbra. O local iluminado seria o presente.

Dentro dessa idéia, Stephen King cria o cenário. Um vôo comercial desloca-se pelos Estados Unidos, de Los Angeles para Boston (costa a costa), e não consegue manter contato com o destino (nem, depois se descobre, com lugar algum) a fim de solicitar permissão para pouso. Com o combustível acabando, a tripulação decide pousar mesmo sem contato. Ao chegar ao terminal de destino, os ocupantes do avião descobrem que não há mais ninguém, que tudo se tornou um grande deserto de vida. Só existem as instalações do aeroporto e mais nada. Após muitas dúvidas e os naturais conflitos entre os personagens, descobrem ter atravessado uma “fenda no tempo” (estamos falando de histórias fantásticas, dê algum crédito!) e que aquele lugar era, na verdade, o passado próximo. Não havia mais ninguém porque “o presente” já havia deixado aquele lugar para trás. Sem ter o que fazer e nem para onde ir, os personagens se vêem dispostos a sair dali a qualquer custo (e seja lá para onde fosse) porque aquele “momento” começa a desaparecer (a idéia do facho de luz deslocando-se sobre o rolo de filme), com os “langoliers” do título aproximando-se no horizonte, como uma inexpugnável e impiedosa faixa negra, lentamente se avizinhando. A título de explicação os “langoliers” seriam, portanto, “comedores” do tempo, algum tipo de ser, ou elemento incorpóreo, que iria eliminando aqueles lugares por onde já passamos.

Toda essa história, lida há diversos anos e cuja idéia e desenvolvimento me impressionou positivamente, me veio à mente no final de semana. Você já esteve em algum lugar que conheceu, que já foi cheio de vida e histórias mas que, por motivos diversos, não abriga mais ninguém? Eu estive, nesse sábado, um pouco por acaso, daquele jeito “bem, já que você vai, eu vou lá também; afinal, no momento estou à toa”. Fui à casa onde morava minha mulher com sua família, quando a conheci há alguns anos. A casa está à venda há algum tempo e fomos lá a propósito de alguma manutenção que devia ser executada. Desde que sua mãe se mudou eu não tinha voltado ao local. É interessante observar os cômodos vazios, onde antes existiam camas, sofás, mesas, geladeiras. Uma casa grande, construída por seu próprio pai (meu sogro, que não logrei conhecer), e que abrigou por tantos anos as emoções de tipos e intensidades variadas de uma grande e unida família. O que se vê agora são armários com as portas abertas, uma ou outra caixa vazia deixada para trás, um sofá e o inevitável pó que repousa pelas tábuas corridas das salas, a despeito de eventuais limpezas.

Cheguei à janela do quarto onde outrora eu dormia, no segundo andar, e a sensação de abandono de um tempo passado aumentou. A casa do outro lado da rua, que também era habitada por diversas pessoas e inúmeros cães (coisa que muito me chamava a atenção) também ficou vazia. A sensação não é de completa ausência de vida porque a rua é bem movimentada. Mas concentrando-se naquela pequena casa do outro lado, seu quintal vazio (até as plantas sumiram!) e nos cômodos silenciosos da antiga casa posta à venda, lembrei-me dos langoliers e de nossa incessante marcha pelo rolo do filme, pelos cenários do tempo, orando para que sejamos um sucesso de bilheteria e o diretor-executivo resolva fazer muitas continuações.

quinta-feira, julho 27, 2006

Um pouco mais

Viajo hoje, novamente. Semana que vem estou de volta.

Mais um brevíssimo recesso - para continuar melhor.

Até mais ver.

segunda-feira, julho 24, 2006

V de Viver

Vou viajando, vendo várias vertentes. Veredas vicinais, viagens visuais. Vi vitrines, via-sacra, viacrúcis. Viadutos, vielas, vilas, vulcões, vivandeiras. Vi vigor, vontade, verdade valorizada. Vitória. Viagens. Videira, vindima. Vinho viscejante valorizado, varietal, viço vespertino. Visei vidros vermelhos, verdes, variados. Viviane, Verônica, Vanessa, Valéria, Valquíria: Virgens vestais vestindo véus vibrantes, vestuário vetusto viabilizando vibrações...

Você viaja, vê vocábulos “vips”, vozes vigentes, vinhetas versadas. Veloz, velejei valentes vagas, ventania verberando velame . Varonil, visitei verdejantes várzeas. Vi variantes, versões. Vaguei verdejantes vales, vilarejos. Viajei viaturas, vapores, vagões, viações.

Viajar: vale vinte vinténs? Viajar: valiosa, venturosa vivência. Ver, voltar, vice-versa: vício vitalício. Vida.

sexta-feira, julho 21, 2006

¡Muy amable!


Li em mais de um lugar que Buenos Aires possui mais livrarias que o Brasil inteiro. Ainda que o fato de encontrar uma afirmação em mais de uma fonte dê maior crédito ao fato, sempre achei tal dado exagerado. Ainda que não sejamos um país de leitores (pelo contrário!) uma cidade possuir mais livrarias que todo um país gigantesco sempre me soou mal. No entanto começo a dar algum crédito...
É nítida a formação diversa do povo argentino para "nosotros". Há, sim, muitas e muitas livrarias, de todos os tamanhos e estilos. É difícil o visitante desavisado não acreditar estar em meio a uma grande biblioteca quando chega na El Ateneo (Avenida Santa Fé). Além de ser enorme, é lindíssima. Exuberante. Magnífica. Clássica. Confesso que me senti um tanto humilhado em minha brasileirice. Sua - em média - maior cultura e sua capital federal com reais ares de capital européia não deveriam dar motivo para os argentinos sentirem-se superiores aos seus vizinhos; mas, se não justifica, certamente explica tal atitude. Olha... muito chique.
Notei que há uma preocupação deles próprios com sua imagem externa. Têm noção, é claro, de serem mal vistos pelos demais latinos-americanos, já que carregam uma histórica reputação de arrogância e presunção. No entanto, mais de uma pessoa por lá me perguntou o que eu estava achando dos portenhos, se estava sendo bem tratado e tal. Sempre respondi positivamente. É uma gente que, além de em geral bonita – homens e mulheres – são elegantes e procuram agora, ao meu ver, integrar-se ao “mundo próximo” e não apenas à velha Europa, de onde foram “criados” em grande semelhança.
Ainda que não se possa andar flanando à noite em lugares vazios, Buenos Aires descansa nossa alma tupiniquim desse dia-a-dia tenso de metrópole brasileira. Os táxis são “de graça” de tão baratos, a temperatura é muito civilizada e a comida... ah, a comida é maravilhosa, descendentes de espanhóis e italianos que são! Restaurantes elegantíssimos e saborosíssimos.
Os argentinos formam um povo apaixonado e vigoroso, amando seus ícones e ídolos históricos, na cultura, no esporte, na política. Vê-se referências a Juan Manoel Fangio, Maradona, os generais Urquiza e San Martin, Gardel, Evita, Jorge Luís Borges ou Che Guevara. A bandeira acima, por sinal, marca um bonito monumento a “los caídos” na guerra das Malvinas, com o nome de todos os soldados argentinos mortos naquela malfadada aventura do então governo militar.
Como eles têm a aprender muito com seus vizinhos, e com a grave crise financeira de poucos anos atrás, parece que vão entendendo “o espírito da coisa”. Nós poderíamos ter a humildade de observar muito de seu espírito e tentar, algum dia, repetir seu modo de encarar as coisas. Mas, certamente, isso não se faz de um ano para o outro, na mesma medida em que não se constroem rapidamente certas livrarias e leitores interessados por elas.

sábado, julho 15, 2006

Breve recesso

Saio de férias por uns dias, férias merecidas e que pedem urgência, como costuma ser.

Vou conhecer novo lugar, cada passo será uma descoberta, um ângulo novo de algo desconhecido mas tão presente: a vida.

Trilhar novos caminhos... ah, necessidade tão fundamental!

(trilhos da linha férrea próxima ao centro de Barbacena, naquele dia.)

terça-feira, julho 11, 2006

As dores do Brasil

1 - O menino nasceu no Natal de 1983. Sua mãe, Solange, então com 22 anos, deu ao garoto o nome de Pierre. "Nome 'importado', vai dar sorte", confiou. Menino negro, pobre, nascido em um país de terceiro mundo, na periferia marginalizada, Pierre cresceu.

Vida difícil, dia-a-dia aprendendo as dores do mundo em casa e na rua, sob o olhar da família que, lutando contra os descaminhos sedutores da adolescência de Pierre, consegue manter o rapaz "na linha". Pierre mantém-se na escola e consegue completar o 2º grau. Seus horizontes são curtíssimos mas teve família, tem a cabeça no lugar e vai trabalhar de servente em uma obra, na região serrana. Pouco tempo depois deixa esse emprego e começa a trabalhar como operador de caixa em uma grande rede de supermercados. No dia vinte e cinco de dezembro de 2005, Pierre completa 22 anos, a idade que sua mãe tinha quando ele nasceu. Está satisfeito com o que conseguiu, o emprego no supermercado parece ser estável; tem bom relacionamento com seus colegas e é bem visto na vizinhança onde ainda mora com a mãe. O ano de 2006 chega com suas novidades. "Daqui há seis meses, a Copa do Mundo!", exulta.

Em 16/01/06, uma segunda-feira, Pierre vai a uma praça encontrar com amigos depois do trabalho. Por volta da meia-noite, policiais em uma patrulha da PM, fazendo a ronda nas imediações, ouvem disparos. Se dirigem para o local e encontram Pierre agonizando. Expira.

Poucos meses depois, Solange ingressa com processo na Justiça do Trabalho, solicitando o pagamento das verbas rescisórias devidas ao filho morto, ainda não pagas pela grande rede de supermercados.

2 - Recebi um e-mail com o relato de uma amiga, mostrando-se decepcionada com a Justiça, com a forma que foi tratado seu problema e de sua mãe, com a desatenção de um Juiz com as diversas provas que ela procurava produzir. Lamenta estar decepcionada com as pessoas, com o baixo nível moral que se mostra em qualquer direção que se olhe, com "a podridão do ser humano", conforme diz. Mostro tal relato para uma colega que fica sinceramente consternada com a longa explanação e diz - corretamente - que só podemos pedir desculpas, embora nem saibamos onde se deram tais fatos. Mas há uma culpa e, ao final de tudo, é nossa - como membros do Poder Judiciário - e como cidadãos.

3 - Preciso de uma informação profissional, com urgência, do INSS. Remeto um ofício para aquela autarquia, pensando "quanto tempo isso irá demorar para ser respondido? Será que terei que reiterar? Será que depois de meses terei que enviar um Oficial de Justiça para 'arrancar' tal informação?". Há uma culpa, mas de quem? Devo me contentar em achar que o funcionário do INSS "não quer nada" ou talvez devo concordar em saber que ele tem outras centenas de pedidos como aquele? Mas será que é inevitável, é inexorável, é uma fatalidade (como sempre gostam de falar na TV) o fato de ele ter centenas de pedidos? Não há forma nesse mundo de os serviços do órgão da seguridade social serem mais eficientes?

4 - A moça vai tentar resolver um pequeno problema, mas que produz graves conseqüências, em uma seção eleitoral do TRE. Fica satisfeita em ver que não há filas, as eleições ainda estão razoavelmente distantes. A funcionária, vendo que a cidadã é de outro estado diz que infelizmente nada pode fazer, e que a eleitora vai ter que ir até seu estado natal. A moça vai embora, mas resolve insistir na seção ao lado. Uma simpática servidora resolve seu problema em menos de cinco minutos.

5 – Dois rapazes chegam do exterior, de viagens distintas. Suas malas aparecem abertas na esteira da área de desembarque; perfumes, pequenos presentes e um laptop “último modelo” desapareceram. As companhias aéreas afirmam não terem responsabilidade sobre os bens. Tampouco é responsabilidade da empresa de infra-estrutura aeroportuária. Se os viajantes quiserem algum ressarcimento provavelmente terão que procurar seus direitos na Justiça.

Será que não há forma de o Juiz daquele processo da amiga ser mais interessado? decerto existem muitos lugares por aí em que o poder judiciário funciona melhor. Por que aqui é assim? Não haveria forma de Pierre estar vivo? E, já que morto está, não haveria jeito de uma grande empresa cumprir dignamente sua obrigação? E a investigação do crime? Não poderia ser mais eficaz, principalmente quando sabemos que uma porcentagem enorme dos homicídios ficam sem solução? E não poderia ter maior responsabilidade sobre seu trabalho a servidora pública da seção eleitoral? E a Justiça, será que dará a devida atenção e solução para o descuido da empresa aérea (ou seja lá de quem for a culpa) em relação aos bens roubados? Por que em outros lugares isso não ocorre?

Para todos esses questionamentos (e tantos outros) há respostas e até soluções, ao menos em teoria. Mas que parecem inexeqüíveis por questões múltiplas que podem ser encerradas na conclusão que se segue, lápide de um fato ocorrido num lugar obscuro, na periferia da cidade e da sociedade.

O corpo de Pierre foi levado para o IML. Lá, o legista, em seu laudo, informou que Pierre morreu devido a "hemorragia interna, lesão de pulmões e traquéia, ação pérfuro-cortante", com ferimento nas costas, exibindo "ferida ovalar no dorso, em região escapular direita, compatível com entrada de PAF [projétil de arma de fogo]" e com os "pulmões transfixados nos lobos superiores (...), com o terço superior da região torácica esquerda com uma ferida (...) compatível com saída de PAF". Portanto o laudo afirma que Pierre foi alvejado aparentemente por um projétil de arma de fogo que entrou pelas costas, parte superior direita, atravessou os pulmões, destruiu sua traquéia nesse caminho, e saiu pelo peito, lado superior esquerdo do tórax.

Examinando os autos do processo trabalhista interposto contra a grande rede de supermercados, encontramos o boletim de ocorrência da polícia civil (e que integra, originalmente, o processo de investigação) afirmando sobre o mesmíssimo caso, categoricamente, em relato de um policial militar, que, além de Pierre haver sido atingido por "bala perdida", não houve testemunhas do fato e que o corpo "foi encontrado com perfurações na cabeça".

domingo, julho 09, 2006

Na noite de domingo minh'alma ficou limpinha e cheirosa

Definitivamente esse não é um blog exclusivamente sobre futebol mas não posso deixar de voltar a esse assunto. Serei breve.

Na noite de domingo, Zinedine Zidane lavou minha alma. Não agüentava mais ver esse jogador ser tão incensado como gênio da bola pela imprensa brasileira e, certamente, mundial. Ele foi um bom jogador? Foi, ganhou alguns títulos para seu clube e país, sendo o mais importante, naturalmente, aquele em 1998. Mas será um fora-de-série, extra-classe (como tivemos tanto que ouvir nos últimos dias) ? Não, não é e, o que é pior, mostrou para todo o mundo sua face mais... recôndita (boa palavra essa).

Sua violenta agressão ao adversário ao final do jogo, no final da Copa, no final da carreira, foi o terrível epílogo de sua participação na partida contra a Squadra Azzura onde já havia cobrado com displicência uma penalidade máxima, o que pode até ser lido como uma forma de pouco caso com o adversário. Ao final, com desmedido destempero, deixou sua seleção em desvantagem numérica, ele que é, ou deveria ser – pela fama que tinha – , o líder daquele grupo. Deixou os companheiros com um jogador a menos e com tal ato absteve-se de cobrar o pênalti ao final da prorrogação, logo ele, cobrador oficial e que, talvez, conseguisse modificar o malogro francês.

Parece que Zidane deixou-se levar pelo doce canto da sereia, como os craques (?) brasileiros. Em horas assim concluo que jogadores de futebol são muito parecidos, sejam do campeonato carioca, potiguar, capixaba ou na final da Copa do Mundo. Se tiver um pouco de sensatez esse Zidane pedirá desculpas não só aos franceses, mas também ao mundo. Mas, se for igual mesmo aos seus companheiros brasileiros vai ver já está curtindo as férias em festas ou comprando mimos para curar a ressaca moral.

Itália!

sexta-feira, julho 07, 2006

Obituário

No Juízo onde trabalho há um processo conhecido por todos, devido ao singular nome do autor: ADOCIL Peixoto.

Hoje chegou uma petição, para habilitação dos sucessores, dando notícia do passamento do sr. ADOCIL.

No atestado, a causa mortis: diabetes.

"Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve"

Há três tipos de pessoas: as que gostam de viajar e botam o pé na estrada; de tempos em tempos conhecem novos lugares – ou paragens já conhecidas e aprovadas – seja de carro, ônibus, navio ou avião (ou trem, onde houver). Há aqueles que gostariam de conhecer novos lugares mas, infelizmente, não podem – por diversos motivos. O mais comum, dureza. E, finalmente, há aqueles, estranhíssimos, que podem, têm tempo, mas não ligam. Devem achar que viagens são perda de tempo (!), dinheiro jogado fora (!!) e apenas uma forma cansativa de passar o tempo livre (!!!). Ok, ok... embora já os tenha chamado de estranhos, devo, por política de boa vizinhança, dizer que “respeito suas posições” e “cada um na sua”. Mas confesso, baixinho, que não dou as costas pra eles não... sei lá...ih...

Para mim, como já ficou claro, viajar é daquelas coisas inarredáveis, fundamentais, basilares, primárias, incondicionais, elementares, básicas, essenciais e... ah, tá bom, chega de sinônimos! Não vou restringir aqui “viagem” àquelas longas, internacionais, “de duty free”. Nasci numa cidade com diversos tipos de destinos a uma hora ou pouco mais de distância. Praias? tem; serra “econômica”? idem; serra chique? pertinho; floresta conjugada com o mar? opa, logo ali, lindíssima. Isso sem falar dos outros estados: metrópole bem diferente do Rio mas com seus inegáveis encantos gastronômicos e culturais? é perto, direção sudoeste; e o que falar do charme de Minas Gerais: ah, Minas, suas curvas, sua gente que tanto me seduz...

Uma grande viagem pode ser para o interior, estradas de terra e o espírito simples e terno da gente daquelas veredas. Uma viagem assim costuma nos levar não só para o “interior do exterior”, mas para nosso próprio e íntimo âmago. Ah, faz tão bem à alma... É claro que uma grande viagem pode ser para um destino distante, uma realização, um projeto, uma descoberta, uma confirmação... Por sinal, há anos li que quando viajamos por turismo costumamos viajar para confirmar impressões sobre o destino; é raro alguém ir para um lugar do qual pouca ou nenhuma informação tem. Se a pesquisa foi bem feita, é muito incomum haver decepção.

Viajar me faz sentir mais vivo. Lembro da pura felicidade um dia, sozinho, início de noite, numa praia de Aracaju – destino que dias antes nem pensava em conhecer, como a maioria das pessoas, por sinal – conversando com uma rapaziada local e comendo acarajé... Daqui a uns dias vou partir para um novo destino e já estão em mira outros inéditos, para os próximos meses; serão decerto, a seu turno, relatados aqui. Quem sabe in loco; a Internet fez dessas coisas, a imediatidade, a aproximação do tempo ao fato (por sinal esse é um tema que tenho pensado em abordar).

Enfim, a expectativa da viagem me revigora. Como qualquer boa expectativa.

(a foto é desde um ultraleve, litoral da Bahia, entre Arraial d'Ajuda e Trancoso)

quinta-feira, julho 06, 2006

Breve nota explicativa

Geeeeenteeem, pára tudooooow...

Seguinte: muita gente não gosta de ter que explicar uma piada, mas eu não ligo tanto assim. Porém, de fato, a piada tem um timing, seu ritmo, seu momento. Se o sujeito conta e ninguém entende - ou a maioria não entende - é porque é má piada ou porque foi mal contada.

Há alguns dias escrevi "Confissão Pública". Até hoje recebo um ou outro comentário sobre o tal texto. Para mim ele teve um objetivo: ser um texto bem-humorado - como costumo escrever e ser no dia-a-dia - procurando dar uma determinada conotação (como bem disse a Joana "Quase achei que vc estava saindo do armário") para no final revelar que o tal objeto do desejo era um frugal carro. Ok?

Pois eu acho (mas vai ver estou errado) que as pessoas leram aquela história muito "ao pé da letra". Na verdade o que menos me interessou ali foi o carro em si. Sim, é um carro lindo e, sim, eu e Clítia chegamos a conversar sobre qual seria a cor mais bonita, etc, etc. Mas, ao menos por ora, não o quero comprar. Mais que isso: não tenho aquela fascinação quase orgástica em relação a um carro. Gosto deles, mas nem tanto!

Sabe, talvez eu esteja errado em enfatizar isso, mas a gente nem se conhece (falo da maioria silenciosa). Não sou tão amante de carros assim e nem fui à concessionária conhecê-lo, por sinal. Há uma fatia generosa de ficção, nada mais.

Grato pela atenção.

:-P

segunda-feira, julho 03, 2006

“I know it's over”

A reunião do mp3, do iTunes e do Emule faz com que possamos voltar no tempo. Foi o que aconteceu hoje à tarde. A compactação da mídia em um aparelho absolutamente portátil, aliado a uma prodigiosa memória, quase que nos força a baixar a guarda e transformar tudo que temos nos tais modernos arquivos digitais. Pois então foi isso que fiz com vários CDs (já ia escrevendo “discos”, veja só...) antigos e, entre eles, “The Smiths – Singles”.

Para quem não sabe (alguém não sabe?), The Smiths foi um grupo inglês, precisamente de Manchester, de enorme sucesso durante toda a década de 80. Muitos fãs a declaram como “a melhor banda de todos os tempos”. Mas, como foi dito, é declaração de fã e tal coisa tem estrita ligação com declaração de mãe: respeita-se, compreende-se, mas acabamos por erguer reservas, naturalmente. Afinal, “a melhor” ou não, o fato é que é uma banda cultuada até hoje e o será, decerto, por muito tempo. Seu líder, Morrissey, após o desfazimento do grupo partiu em uma carreira solo, conseguindo criar alguns hits e, embora sem atingir aquele sucesso de outrora conseguiu levar muito bem sua vida, obrigado (dia desses fez show no Radio City Music Hall; li que cantou músicas novas, músicas da carreira solo – “Every day is like Sunday” – e que a platéia veio abaixo com “Bigmouth Strikes Again” ou “There Is A Light That Never Goes Out”) .

The Smiths marcou muitos jovens daquela época inclusive este aqui que escreve. Posso dizer que era uma de minhas três bandas preferidas – e aí incluindo todo tipo de som. Com The Smiths nós podíamos ensaiar aquela pose de jovem-desiludido-sem-horizontes-curtindo-as-incógnitas-do-amor-e-do-porvir. Como toda banda jovem e para jovens, The Smiths falava muito de melancolia, do amor, da desilusão com o mundo, protestava contra seu país e contra a igreja.

Pois nessa tarde pós-desilusão esportiva (hum, vai ver foi o estopim da escolha) ia lembrando desses fatos enquanto ouvia There’s a light that never goes out (“And if a double-decker bus crashes into us / To die by your side, such a heavenly way to die”), How soon is now (“I am Human and I need to be loved / Just like everybody else does), Last night I dreamt that somebody loved me, música triiiiste, daquelas que faziam a meninada cantar com emoção (“Last night I dreamt that somebody loved me / No hope, no harm / Just another false alarm”), Girlfriend in a coma - ah, a tragédia... (“Girlfriend in a coma, I know, I know, it's really serious / There were times when I could have murdered her / But you know I would hate anything to happen to her (...) Let me whisper my last goodbyes, I know, it's serious”) ou, entre tantas outras, The Queen is dead, fazendo carga sobre a Família Real (“Dear Charles, don't you ever crave / To appear on the front of the Daily Mail / Dressed in your mother's bridal veil?”) – mas vejo agora que em momento algum da música Morrissey cita Diana Spencer, princesa de Gales (bem, talvez mexer com a namoradinha do império britânico fosse demais até para os smiths...).

Deixando de lado considerações acerca da intensidade do inconformismo smithsoniano com “tudo isso que estava aí”, The Smiths marcou época, marcou seu tempo e até hoje embala sonhos, dials, festinhas e ipods, tendo deixado um recado para os meninos de antanho, em “Pretty girls make graves”, mostrando que não precisavam dizer sempre sim se quisessem um dia dizer não (“I could have been wild and I could have been free / But Nature played this trick on me / She wants it NOW / And she will not wait / But she's too rough / And I'm too delicate / Then, on the sand / Another man, he takes her hand / A smile lights up her stupid face / I lost my faith in Womanhood, I lost my faith in Womanhood / Oh ...”).

sábado, julho 01, 2006

Falta de compromisso, falta de concentração e muito enfado

O futebol é um jogo. Como tal, muitas vezes conseguimos conquistá-lo e noutras ele nos vira a cara e vamos para casa sozinhos. Em um jogo muito disputado e com diversos pretendentes à vitória final, a imensa maioria irá perder. Mas há diversas formas de se participar de jogos, sejam eles pique-esconde, o polícia e ladrão da escola, buraco no sábado à noite com os pais e tios, video-game, paciência ou futebol.

Sua falta de compromisso com um jogo pode ter origem em sua crença quanto às poucas chances de sucesso, seu desconhecimento das regras ou sua técnica limitada. Ainda assim, se quiser, poderá jogar competitivamente, com brio. Na escola, no horário do recreio ou na aula de educação física você pode se empenhar em vencer a partida de queimado ou handball. Mas se não quiser se esforçar - porque está cansado, porque está sem saco, porque sua(seu) namorada(o) te deu um fora, por qualquer motivo - você não terá que responder a ninguém, salvo à sua consciência.

Mesmo que você se esforçe, o destino poderá lhe ser ingrato. Você joga no time de vôlei do colégio ou mesmo no time de futebol do condomínio; você joga no time da empresa ou com os velhos amigos; você vai defender uma tese; você concorre a um prêmio: sua mulher, seu marido, seus filhos, sua namorada, seu namorado, seu amigo, todos vão lhe assistir. O que você deve a eles? nada, nada mesmo, a não ser vontade, interesse, brio. Talvez ao demonstrar tais virtudes aliadas à capacidade de vencer, o destino lhe seja condescendente. Mesmo que dê tudo errado, seus amigos e parentes ficarão felizes e orgulhosos.

Perdendo ou ganhando, sendo derrotados ou vitoriosos, o que temos que ter em mente é o compromisso, a responsabilidade. Mas compromisso e responsabilidade são dois objetivos que podem se tornar voláteis, perder seus significados quando o indivíduo atinge um sucesso pessoal muito grande e, como exemplo de tal perda, começa a reclamar da monotonia de castelos onde tem que ficar concentrado em um determinado objetivo - que pessoalmente não lhe fará diferença em conquistar ou não - e, no momento da disputa, põe-se a congratular-se a todo momento com seus amigos que, ao menos naquele exato e preciso momento, são apenas seus adversários e nada mais.

A gente quer responsabilidade. A gente precisa de seriedade. Até no futebol.

Por que não torcer pela Argentina?

Hoje, sábado, o grande Luiz Fernando Veríssimo escreveu no Globo, de um modo que talvez daqui a umas cinco vidas eu consiga reproduzir, o que eu mesmo vinha dizendo desde o jogo entre Alemanha e Argentina, ontem. O árbitro de ARG x ALE garfou os hermanos, como era mais que esperado, num pênalti no final do segundo tempo.

Estava torcendo avidamente pela Argentina e, posso dizer, quase fiquei desanimado ao final do jogo. Se passar pela Itália, as chances da Alemanha perder a Copa são como de você ganhar sozinho a mega-sena acumulada. E sem apostar (impossível? não... vai que acha o bilhete perdido numa calçada qualquer).

Estou com aquele gosto de "tô sendo enganado", como o Jô Soares em seu velho programa de humor quando usava uma maquiagem e um nariz de palhaço, repetindo "eu não sou palhaço; estão me fazendo de palhaço". Daqui a pouco vamos torcer contra a França, mas... em vão?

A partitura da foto é de "Don't Cry for me Argentina".