quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Tudo muda ou, como sempre, eh soh impressao?

Nao imaginava ser tao longe. Apos a "all night long" viagem ateh Miami, ainda nos esperavam mais cinco horas e meia de voo ateh Las Vegas. A distancia eh longa mas, mais ainda, sinto o distanciamento "psicologico". Aqui sao outros interesses, outros objetivos. "Eh um outro mundo" eh lugar-mais-que-comum, mas nao encontro expressao melhor ao acordar, quase oito da manha, quase duas no Rio... hora desigual, tempo diferente, arrisco-me a dizer - sob o iminente risco de ser taxado de exagerado - que parece outra vida; realmente um outro mundo.

Sentado na cama, enquanto Clitia toma banho, teclado sobre um improvisado travesseiro aa frente, digito lah longe na tela da TV, lendo as noticias do Rio - debate sobre maioridade penal, criminalidade, ateh sobre o BBB... No carro, uma voz em bom portugues do Brasil me indica o caminho, seja lah para onde formos. Digito OUTLET no carro: pronto, uma lista se produz e em minutos podemos chegar ao destino solicitado. O mundo gira muito veloz; ontem aa noite, "meia-noite... Deus, jah sao seis da manha, temos que dormir!!"; vontade nao dah, mas o corpo implora.

Ontem aa noite sentamos numa mesa de blackjack. A croupier estah sozinha, aproveitamos a chance. Explico que nao sei detalhes da regra mas a garota japonezinha me explica paciente. O jogo comeca, sorte e azar (serah que nao eh isso sempre, afinal?), ateh ganhamos um pouco. Senta-se um outro oriental a meu lado. Coloca 1000 dolares na mesa e pega suas fichas. Nao demonstram maior emocao, ele ou a garota da banca. Jogo.

Ainda observamos seu jogo por um tempo. Ganha-perde, e assim vai continuando, como tudo o mais aa nossa volta. Em Las Vegas ou no Rio, outro lugar-comum: a roleta gira, dados rolam, a sorte eh lancada, embora, todos saibam, no final o casino eh quem ganha; eh inescapavel.

Lugares-comum, mas num lugar bem incomum. Ou nao?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Rastros de sangue

Gosto dos velhos filmes de western; sempre gostei. Lembro que nos idos tempos, quando assistíamos à Ilha da Fantasia na TV, imaginava que minha vontade no tal seriado seria viver o dia-a-dia de um cowboy, com direito a Saloon, esporas, rifle Winchester, pistolas Colt ou Smith & Wesson, duelos, pôquer, pradarias e tudo o mais que compõe aquele cenário de, literalmente, bandidos e mocinhos.

No final de dezembro assisti a um clássico do gênero, Rastros de Ódio, com o ícone John Wayne dirigido pelo mítico diretor de faroestes, John Ford. Hoje, lendo as diversas manchetes sobre a barbaridade ocorrida nesse Rio de Janeiro na noite de quarta-feira, o nome daquele velho filme me veio à mente.

-o-o-

Não chego a comungar e, na verdade, estou longe das idéias do budismo sobre a harmonia que deve haver entre todos os seres vivos. No entanto, tenho inabalável convicção que todos eles, animais ou vegetais, merecem respeito. Até mesmo insetos - que devem ser muitas vezes eliminados, já que portadores de doenças - devem ser mortos rapidamente. Nada justifica torturar a aranha, uma barata ou uma mosca (ainda que essa idéia seja inusitada ou até mesmo risível). Assim, muito menos se deve eliminar um ser animal superior sem motivos fortemente justificáveis. Repito, acredito que temos obrigação, principalmente pela tal Razão que nos foi concedida, de respeitar os animais.

O que dizer, então, sobre o respeito a um animal absolutamente semelhante a nós? esse ser tem uma vida e essa vida é chamada de humana. No entanto, cada um desses seres - e são bilhões - tem o que chamamos de "livre-arbítrio". Fazemos o que queremos (ou tentamos fazer), até que algo nos prove o contrário, ou a impossibilidade. Se eu quiser voar por meios próprios, posso tentar, embora saiba que - à exceção de um milagre - vá despencar e provavelmente morrer. No mesmo tom desse exemplo extremo, podemos fazer infinitas coisas, muitas até bem menos letais, ao menos para o agente ativo da ação. Podemos, como derradeiro exemplo, bem escondidos, sob as trevas da noite e distantes de tudo, matar uma pessoa. Mas, no geral, não fazemos. Os motivos todos sabemos e dispensam ser elencados.

-o-o-

Vivemos em um enorme grupo social. E o grupo - seja a cidade, o estado ou o país - é composto por cada um de seus membros e pela totalidade de seus atos. Esse organismo, o grupo social, depende de que cada uma dessas "células" exerça, dentro de um razoável e aceitável leque de ações, sua função, seu papel. Há uma espectativa sobre o deputado, o vendedor, o prefeito, o motorista, a mãe, o filho, o guarda, o médico, o jornalista e, até, o bandido.

Uma atitude inumana, ignóbil e monstruosa como a que ocorreu nessa noite de quarta-feita, nos subúrbios entregues ao próprio azar da cidade do Rio de Janeiro, é completamente inaceitável e quase incompreensível. Há teses, sociais, culturais e históricas (além das políticas e econômicas), mas tudo passa pelo completo desarranjo em que nossa sociedade vive.

No Brasil, já se disse muitas vezes, o indivíduo pode chegar a ter vergonha de ser honesto, face à completa desordem a sua volta. Nesse momento, como se isso fosse um desrespeito com tantas dores que nos cercam, chego a ter vergonha de ser feliz.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

E a gente vai levando do jeito que dá

Ando preocupado com essa história de aquecimento global. Mas do que ser sério, o negócio parece que é irreversível. Se bobear, o balneário outrora alcunhado de Cidade Maravilhosa vai, simplesmente, acabar dentro de uns 50 anos ou pouco mais. Tenho pensado em vender o que tenho aqui, comprar em BH e morar no Rio de aluguel.

Sério...

(E não adianta querer vender daqui a uns... 20 anos, digamos. Se a "chapa esquentar" mesmo - literalmente - daqui a duas décadas tudo aqui não vai valer nada. Espero que nenhum potencial comprador do meu imóvel esteja me lendo)

-o-o-

Mas na semana passada, na quarta-feira, viajei para um lugar lindo demais que, por sinal, não deverá ser muito afetado pelo efeito estufa (ou, pensando bem, será... Sei lá). Fui conhecer um condomínio a 300 km de BH chamado Escarpas do Lago, na represa da hidrelétrica de Furnas.

Dizer que é es-pe-ta-cu-lar e colocar fotos aqui, seja lá quantas forem, não dará a dimensão da beleza dessa represa que banha dezenas e dezenas de cidades e municípios e que numa direção você pode percorrer 110 km de barco e noutra, uns 90 e, em outra mais, cerca de 100. Um colosso surpreendente. Li em algum lugar que o perímetro de sua (muito sinuosa) margem é de 2.000 km. Incrível.

O tamanho do lago se revela quando, ao voltar de um passeio a dois fantásticos cânions - a cerca de uma hora de lancha a partir do condomínio - estivemos, por alguns minutos, navegando sinceramente perdidos (o que foi resolvido com uma crença cega na bússola, na posição do Sol e em uma carta náutica). Além disso, a beleza do lugar, aliada à envolvente hospitalidade mineira, ratifica os versos daquela velha marchinha "oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais...".

A dica de turismo é, portanto, Escarpas do Lago, que já foi chamado de "a Miami mineira".

Mas, como em Angra dos Reis, tenha um barco à mão.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Um daqueles temas que não se discutem

Fé.

Fé é coisa séria e o mínimo que se deve exigir, de si mesmo e dos outros, é respeitar a fé do próximo.

Dito isso, examinemos a foto. Encontrei-a ao acaso na Wikipedia, no verbete "Carmel-by-the-sea", em longas pesquisas que tenho feito.

"Jesus está chegando" ou "chegará em breve", que seja. Fiquei olhando para essa foto de 1918 imaginando o que seja "breve" para a fé. Acho que boa parte dos crentes espera uma chegada física, retumbante, hollywoodiana até, quem sabe. Por outro lado, se acreditam que o "está chegando" é em espírito, aquele coisa de "receber no coração", é diferente. Muitas vezes pode chegar mesmo. Mas se esperam aquela tal chegada bombástica... bem, "soon" torna-se muito vago.

Decerto não deu para a senhora da foto, lá no início do século XX, esperar.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

"Só não vale dançar homem com homem..." (por sinal, bem homofóbica essa "Vale Tudo", não?)

O verão em Pindorama anda meio mixuruca, temos que confessar. Chove muito mais do que se poderia esperar, com exceção do extremo sul e do litoral nordestino. No Rio não anda fazendo aqueles típicos 40 graus de verão e nessa estação o que se vê diariamente são nuvens e não aquele céu e sol comuns em cartões postais. Mas, ora, não é uma chuvinha aqui ou um nevoeiro acolá que iria embaçar a folia carioca nesta que é a época mais festiva por essas bandas! O carioca recebe de braços abertos, como o Redentor, os visitantes.

Não me deixam mentir as fotos que foram publicadas no "flickr", um youtube de fotos, e que ontem foram descobertas pela imprensa (mas não adianta mais ir lá no flickr; o autor das fotos - ou o site - já as retirou do ar).

No entanto consegui "resgatar" duas fotos que mostram como nós, cariocas e fluminenses, estamos prontos para bem acolher os viajantes. Os flagrantes mostram - ao todo - três turistas com pinta de européias, brincando com PMs lotados no batalhão de Angra dos Reis. Aparecem abraçadas aos policiais e bem sorridentes, bem como os zelosos agentes da Lei. O desapego carioca aos bens materiais fica bem latente na foto em que a loirinha, toda despachada, segura firmemente o fuzil do roliço soldado.

Portanto, não espere mais! nesse verão venha ao Rio! quem sabe no Carnaval ?!?! Talvez você até consiga realizar aquele seu sonho de criança, brincar para valer de polícia e ladrão. Vem pro Rio você também...

Vem!

sábado, janeiro 20, 2007

Mitológica

É, mas a vida não se faz apenas de divagações acerca das tantas diferenças no mundo. Se faz, também, de aproveitar, com responsabilidade, o que temos à mão.

Sei que talvez isso não interesse a muita gente que vem aqui trocar idéias comigo e com os demais visitantes e, acima de tudo, me prestigiando com suas presenças. Sei que é um assunto de foro íntimo - dado que certas preferências que temos, devem, muitas vezes, ser tratadas entre pessoas que comungam da mesma opinião e, num grau mais profundo, do mesmo vício.

Mas, igualmente, acho que os blogs devem (ou ao menos podem) ser lugares onde revelamos claramente nossas idéias e, por que não?, aspirações, temores, manias, entre outras. Assim, resolvi falar desse encontro, compartilhando não só fatos como, igualmente, imagens.

Aconteceu como um presente de Natal e, por acaso – ou obra do destino, como quiser - , foi no dia 25 de dezembro, o dia em que a conheci pessoalmente. “Pessoalmente” aí tem grande valor porque, é claro, já a tinha visto um sem número de vezes em fotos, na TV e, até, umas poucas vezes ao vivo. Mas nunca tinha chegado junto, sem confusão – olhos curiosos e desejosos - por perto e, muito menos, nunca havia lhe tocado, ouvido sua voz ou aroma. Pelo que ouvia e lia sobre ela, tinha uma impressão que se concretizou: ela nos acolheu muito bem, com sua personalidade vibrante. Admito que fiquei embevecido, babando mesmo. Não posso, nem consigo, segurar os adjetivos (se é que os encontro): é sensual, é linda, magnética mesmo. Uma estrela de TV, de cinema, de qualquer lugar; européia e latina, famosa em qualquer lugar desse mundo, verdadeira diva, um mito. Nasceu precisamente na Itália, na mítica Maranelo. Ah, que máquina...

Ela e suas irmãs têm nomes diferentes mas pode chamá-la simplesmente de Ferrari. Essa das fotos abaixo, de um amigo meu de Minas, responde por "Challenge Stradale", versão apimentada (!!) da F360 Modena, com seus fogosos 425 cavalos (um 1.0 tem, no máximo, uns 75 cavalos, à guisa de comparação). Assentos de couro vermelho-paixão. Acelerando pelas ruas, você não tem idéia... Um êxtase. Orgasmo para todos os sentidos. Ma-ra-vi-lho-sa.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Observações

E continua a chover no Rio de Janeiro. Lembrando “Bye-bye Brasil” quando cita a constância do sol, aqui parece que é a chuva quem nunca mais vai se pôr. E foi nesse cenário de chuva intermitente, garoa fina “que vem e que passa” (mas torna a voltar), que o observei.

Manhã ainda bem recente, já estava aquele rapaz com sua camisa e bermuda surradas, chinelos bem gastos e sacolinhas de balas. Diariamente ele se coloca ali, no cruzamento entre a grande praça Paris e sua diagonal, o Passeio Público, onde começa a Lapa e o Centro. É um rapaz magro, bem franzino. Nunca o encarei de perto mas, salvo engano, acho que é estrábico. E marca ponto naquele espaço, com seus saquinhos de balas de terceira categoria, procurando vendê-las a algum motorista, faça sol ou, como hoje, chuva.

Quando virei a curva para avançar sobre a Lapa em direção ao tribunal, o sinal estava fechado e não havia carro algum; fui o primeiro a chegar. Na outra ponta do cruzamento, no sinal do tráfego que vem do centro, estava o rapaz, aguardando o sinal fechar e, talvez, algum vidro se abrir. Observei-o em sua solidão, cabeça baixa, mexendo em suas traquitanas. A uns quinze metros de distância eu também estava sozinho no carro que, por sua vez, não encontrava par no sinal. Ah, sim, eu sei, que solidões... mas, que vergonha, elas são tão diferentes!

Naquele momento tão matutino, um único pensamento invadiu minha cabeça, uma questão que, na ausência do sono nessa hora que já se insinua pela madrugada, me acompanha desde a manhã: qual é a diferença entre mim e aquele moço? Qual? Nenhuma, absolutamente nada. A meu ver, uma questão cativa do acaso e nada mais: eu em meu carro, vidros travados, ar ligado, bem alimentado; vindo do conforto e bem-estar da cama, da casa, da família; indo para o bom trabalho, seguro, estável, para a lide diária processual. Em que sou melhor que ele? Eu sei, não tenho dúvida: em nada. Acaso.

Sim, carece de exposição; sei que faço coisas que ele não sabe mas, e daí? Nada inato; tudo aprendi. Por sua vez, quem sabe?, o humilde e raquítico rapaz das balas vagabundas pode saber coisas que desconheço e que nem conseguiria executá-las ou manejá-las. A opção “coisas-da-vida-e-da-rua” é uma boa aposta nesse quesito. De mais a mais, deixando conjecturas de lado, em uma coisa sei que ele é “melhor” que eu (com vigorosas aspas porque não se trata de achar fatos melhores ou piores, em mim ou nele. São contingências; vicissitudes ou bônus): ele tem uma determinação que eu não teria. Claro, tudo é tese. Assim, pois, do meu ponto de vista não me parece que teria tal força de vontade.

(É óbvio também que é “do meu ponto [privilegiado] de vista”; e desse patamar tal resignação comercial no sinal de trânsito parece inviável. Mas, confesso, não consigo arrancar a alma do corpo – e da mente – ao observar seja lá o que for; quem realmente consegue, que se habilite e fique rico. Bom, muitas vezes serve fingir e se tornar charlatão, como uns que tem por aí escrevendo livros; mas tal "virtude" não aprendi.)

E aquela foto do início? Bem, o coqueiro da foto nada tem a ver com essa história, a princípio. Mas, novamente, quem sabe?

Ele está plantado em um lugar chamado Pousada Pitinga (.com.br), associada ao “Roteiros de Charme”, em Arraial d’Ajuda (o toque quanto à associação indica o clima da coisa). Observei um pássaro pousar em uma daquelas folhas do coqueiro; logo voou, seguiu sua vida. E naquele 30 de dezembro, pensei: “para que serve esse (ou qualquer) pássaro?”. Imediata resposta: “para nada!” e me completo, absorvido na divagação: “ainda bem que para nada porque os seres ou coisas não devem servir (e aí entenda-se “nos servir”) para coisa alguma. O pequeno pássaro é apenas ele, como tudo o mais "é", e como nós somos. Não sou, fundamentalmente, mais importante que ele (ao menos não me devo achar; se for relevante para a existência de algo ou alguém, então que me julguem assim).

Sem dúvidas e bem consciente: nem um pouco mais importante que o pássaro do litoral baiano. Nem um pouco mais importante que o persistente rapaz do sinal. Tudo e todos: iguais.

(Considerações sobre o que nos cerca, num momento em um país em que nossa vida de nada presta, em que podemos nos tornar vítimas sem amparo, seja pelo projétil que vem de cima, pela ponte que interdita o caminho, pela barragem que arrebenta e intoxica o rio ou o buraco que surge tragando gente. “Fatalidade”, palavra tão facilmente aplicada e pronto, a culpa vai se esvaindo.)

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Alívio

Ainda não me acostumei (embora saiba que é bem fácil acostumar-se a coisas boas). Toda vez que vejo ou leio Sérgio Cabral - novo governador do Rio de Janeiro - na TV ou jornais, me dá uma enorme sensação de alívio. É muito bom ler ali sob o écran da TV seu nome, sepultando para sempre - é o que se espera de qualquer ente sepulto, não? - o clã garotinho.

Na verdade, nem votei no primeiro turno em Sérgio Cabral mas ao final da eleição (e principalmente agora) fiquei satisfeito com o resultado do certame. Tive algo bem próximo a orgulho de nós, eleitores fluminenses, com a eleição desse sujeito - que não é messias algum e decerto tampouco santo; quem é? - mas ele ali no Palácio Guanabara dá alguma esperança para o povo do Rio pois entre mil outras coisas há uma que nunca vou entender e nem quero: o que são (e como chegaram ao cargo de governador umas coisas daquelas?!) rosinha e anthony garotinho? meu deus, até seus nomes são... farsescos! "Orra meu" (diriam em sampa), vade retro!

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Mas antes...

Mas antes de falar da viagem, vale a pena compartilhar com vocês essa foto que tirei no início da noite desse domingo, último dia em que a árvore da Lagoa foi acesa.

Agora, só em dezembro.

domingo, janeiro 07, 2007

Shhhh! Imbloglio is on air!

Após uma parada durante as festas de final de ano eis que estamos de volta "pras coisas que eu deixei". A ida até o sul da Bahia foi feita em três partes - a primeira até BH, onde foi passado o Natal e depois, no dia 26, a "caravana rolidei" prosseguiu até Teófilo Otoni, ainda em Minas e, de lá, no dia seguinte, até a "costa do descobrimento". Já a volta... Bem, em apenas um dia foi uma esticada de exatos 1.112 quilômetros e 900 metros, como denuncia o hodômetro do carro, direto de Coroa Vermelha (ao norte de Porto Seguro) até o Rio.

Portanto, eis aqui em avant premiere minha primeira resolução de Ano Novo: nunca mais viajar de carro por mais de 400 km (Rio-SP ou Rio-BH); além disso, só avião - mesmo com seus atrasos - e, qualquer coisa, aluga-se um carro no destino. Ademais, por causa das chuvas dos últimos dias, caiu uma ponte em Campos o que me fez sair da Bahia às 8 da manhã e após fazer contornos imprevistos chegar ao doce lar às 11 da noite. Que tal?

Mas, enfim, após dias de sol, pontes partidas, barrancos caídos e todos sãos, o ImBLOGlio Carioca está novamente no ar - cada vez acho esse nome de batismo, embora estranho, mais apropriado em relação à cidade, não? - com variadas histórias muito em breve.

Por agora é apenas isso: Olá!!

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Maçarico carioca

Os cariocas, mais brilhantes que nunca, parecem eternos insatisfeitos. A temperatura baixa e o céu mantém-se encoberto por nuvens: reclamamos pela volta do Sol. O Sol volta, reina soberano na abóbada celeste, nem nuvem alguma vem lhe ofuscar a força, imploramos pela piedade do inclemente astro-rei.

Agora, eis que se aproxima em desabalada carreira o verão e o Sol grudou no Rio de Janeiro, tal qual chiclete no cabelo; não sai fácil não. E assim aqui estamos nós, a um tropeço do desmaio, apelando para condicionadores de ar, para o chopp e para as ondas atlânticas.

A foto abaixo, substancial exemplo da canícula (cheguei a ver um termômetro marcando 45° em Niterói!), foi tirada nessa quarta-feira, orla da Lagoa, por volta das 13:00 horas.

E embora não seja a bebida mais apropriada para esse clima misto de Saara com selva amazônica (asfalto derretido com umidade do ar altíssima), ontem à noite um casal amigo que veio nos visitar trouxe uma curiosidade para bebermos juntos: um vinho... venezuelano!

Tivesse eu que responder no "Topa tudo por dinheiro", valendo um milhão, se a Venezuela produzia vinho, cravaria todo pimpão (adoro essa palavra) um NÃOOO! e me daria muito mal. E, mais surpreendente: tem um sabor muito agradável. Imagino que o paladar da boa maioria de eventuais convivas iria ficar satisfeito. É aquela coisa, "vivendo e aprendendo".

E com essa curiosidade do campo da enologia, creio que o ImBLOGlio Carioca inicie aqui - salvo apareça alguma notícia trepidante - seu recesso de final de ano. Amanhã vamos partir rumo às alterosas para passar o Natal e de lá seguiremos em caravana (oi!) para o sul baiano. Lá pelo dia cinco voltaremos com fotos, histórias e baterias recarregadas.

O ImBLOGlio nasceu no final de abril passado e foi, sem dúvidas, uma experiência não só interessante como divertida. Usando essa tão moderna ferramenta de um - se não "admirável" em alguns aspectos - certamente "surpreendente mundo novo", conhecemos inúmeras outras pessoas que têm, como eu, a simples vontade de divulgar o que pensam, em prosa, verso, casos reais ou ficção, procurando clareza, harmonia e convencimento, seja criando textos, comentando ou até mesmo apenas sendo leitores "ocultos", preferindo o comentário verbal, pessoalmente. Foi ótimo conhecer as idéias de tanta gente, portanto. Desejo, assim, um maravilhoso final de ano com muita paz e determinação para o futuro. Beijos para todos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Notícias do front (extra, extra)

Semana passada houve de tudo nessa terra brasilis mas nem tivemos tempo de vir aqui trocar idéias... Não deu tempo e, no final de semana, o céu cor de safira, a praia e festas não deixaram ninguém ficar em casa.

Hoje o trabalho acabou, o recesso forense começou. Estamos ainda no tribunal mas temos álcool. (Acabaram de passar aqui sentenciando: "Se ainda há álcool, ainda há esperança!!!") Pois não precisamos de mais nada. Sol, verão, recesso e algum caraminguá no bolso!

Uhuuuuu!

(o que não faz o álcool...)

sábado, dezembro 09, 2006

"You're just too good to be true, can't take my eyes off of you"

Quando era bem jovem, lá pelo início da adolescência, tinha uma fantasia que me repetia com constância (mas não, não falo desse tipo que porventura pensou, essas fantasias típicas da tenra idade e do onanismo): inocente, apenas imaginava a cidade vazia, sem absolutamente nenhuma pessoa a não ser, talvez, um ou outro escolhido por minha soberana vontade.

Como num filme de ficção-científica/catástrofe, imaginava as ruas e avenidas sem carros, sem sinais vermelhos e engarrafamentos. Os shoppings vazios, com tudo o que expõem e ofecerem de graça, “pegue e leve”. As melhores casas, mansões, carrões, tudo disponível. Tudo meu, tudo eu! (além das questões do bel-prazer não haveria o atual problema da insegurança; nada de falsas blitzes, arrastões, seqüestros-relâmpago ou fictícios, latrocínios e quaisquer outras "instabilidades de caráter" a que todos estão expostos – até a presidente do Supremo Tribunal)

Talvez outras pessoas tenham idéias assim na infância ou adolescência ou, quem sabe, através da vida. Eu, ao menos, consegui me livrar delas pois afinal, de que serviria um mundo, esse mundo que conhecemos, sem ninguém? Um mundo de tamanho silêncio que, mesmo longe da praia, seria possível ouvir as ondas quebrando nas avenidas à beira-mar. Um mundo onde não haveria ninguém para produzir a variada gama de alimentos que desfrutamos. Um mundo onde não haveria ninguém para produzir a necessária energia para fazê-lo funcionar, ninguém em usinas nucleares, termo-elétricas ou hidrelétricas. Que noites silenciosas e negras teríamos! E quando os alimentos estocados nas residências, restaurantes, mini, super e hipermercados começassem (e seria rápido, bem rápido) a estragar e apodrecer, quantos organismos infecciosos não apareceriam? E com as águas das piscinas e reservatórios paradas, sem limpeza ou bombeamento, que variedade de doenças não iriam produzir? Ainda: o que falar dos remédios nas farmácias perdendo, cada um a seu turno, a validade e eficácia?

Não haveria, portanto, energia elétrica, saneamento, água potável, limpeza urbana, manutenção de estruturas, controle de pragas ou zoonoses. Não haveria combustível para viajar para outros lugares (lembrando que mesmo se fosse possível alcançar – sem energia elétrica – o combustível nos tanques dos postos, ele também se deteriora em poucas semanas ou no máximo alguns meses) e nem ninguém para comandar os navios ou aviões (nesse aspecto, também não haveria controle aéreo mas ao menos isso seria dispensável; diferente de agora). Clínicas, médicos ou hospitais só existiriam na, então, apavorada lembrança.

Assim, as cidades – pequenas ou grandes - seriam áreas proibidas, repositórios de inúmeras doenças e seus transmissores. Teríamos que fugir para o campo, uma área rural longe do que atualmente significa “civilização”, levando conosco apenas o que fisicamente conseguíssemos carregar ou, no máximo, até onde a autonomia dos carros nos garantisse ir (desde que tivéssemos suas chaves; “ligação direta” é coisa só dos velhos filmes já que agora eles – os carros – nem mais aceitam esse “truque” e, ademais, quem aí sabe fazer ligação direta?), e lá tentaríamos preservar nossas vidas não sem antes desempenhar um esforço enorme a fim de manter o equilíbrio psicológico.

-o-o-

Essa fantasia juvenil, exposta agora, tardiamente, é apenas para mostrar o quanto precisamos e dependemos do “próximo”, desde que cada um dos próximos desempenhem satisfatoriamente seus papéis. Jean-Paul Sartre bem observou que “o inferno são os outros”, por sua potencialidade de apontar nossas falhas e erros, servindo como perfeitas consciências que, usualmente, podemos teimar em deixar de lado e porque “os outros” são, muitas vezes, o anteparo que dificulta ou impossibilita a concretização de nossos projetos. No entanto, no ponto onde chegamos, eles são de importância capital. Vital, ao pé-da-letra.

(Posfácio: Dito isso, não tenha medo de sair à rua dizendo para cada um que vir: “eu não vivo sem você!”. Errado(a) você não estará. Talvez seja, apenas, mal interpretado(a). Dou-lhe uma idéia: imprima – e traduza, onde necessário – uma cópia desse texto e, antes que seu interlocutor consiga dizer algo, visto que estará boquiaberto, atarantado, enfie em sua boca o texto e saia correndo para repetir a cena com mais alguém)

terça-feira, novembro 28, 2006

Gente que brilha

Saiu na imprensa uma nova foto daquela francesa que no início do ano apareceu em TODAS as TVs do mundo por ter sido a primeira pessoa a sofrer um transplante de rosto. Pois está muito melhor, até com um sorriso de monalisa. Fico a imaginar tudo o que envolve tal cirurgia - não só a técnica mas a adaptação emocional. Incrível.

-o-o-

Li dia desses um texto sobre a Igreja Bola de Neve. Tal nome remete ao inescapável bordão "a igreja que não pára de crescer" que, ao que parece, é mesmo a intenção do fundador, o pastor, ou melhor, o (atual) apóstolo Rinaldo Pereira. Como a petição daquela advogada, alguns posts abaixo, parece brincadeira. (No site da Bola de Neve tem até o... "BolaNews"! Cada crente tem a igreja que merece)

-o-o-

Atesto que, sem margem de dúvida, o carioca é gente que brilha. Neste calor úmido (tipicamente carioca) que tem feito - dei uma caminhada um pouco maior que o normal pelo centro e, claro, observei muita gente - o carioca derrete, transpira todo, fica com a cútis brilhante que só vendo... Haja sabonete, adstringente e que tais.

sábado, novembro 25, 2006

Parônimos

Atualmente no Brasil o TRÁFICO de drogas funciona melhor que o TRÁFEGO aéreo.

Ou seria mais justo dizer que o tráfego de drogas é mais eficiente que o tráfico aéreo?

Desse jeito que está, onde tudo parece descontrolado, tanto faz; virou zona mesmo...

quinta-feira, novembro 23, 2006

Apesar de tudo, sonhos (terceira parte; final)

Finalmente a turba encastelada na suíte presidencial deu sinais de que iria partir, a arruaça arrefeceu. O som foi desligado e, para alívio e satisfação do gerente, a conta foi paga - embora, estranhamente, direto na saída do estabelecimento. Marluce foi enviada para arrumar a bagunça e (decerto) ver os estragos deixados; “esse pessoal joga as toalhas na piscina e até dentro do sanitário; uma droga...”.

Enquanto segue pelo longo corredor de serviço que leva até a suíte presidencial, Marluce ouve, vindo lá de fora, um som alto, música de gringo. No momento em que os homens deixam o motel ouvindo o rapper 50 cent e cantando os pneus da pick-up, Marluce abre a porta do quarto.

A pequena geladeira está aberta, bebidas encharcam o carpete e, no ar, além do pequeno lustre ainda balançando sobre a mesa de refeição, a camareira identifica o cheiro da erva delinqüente queimada. Apressa-se a secar o tapete e nota que lá dentro a TV ainda está ligada no “canal privé”. Isso não a incomoda mais; “sempre deixam nesse canal, parece que é de propósito”.

Com tédio, entra pela ampla suíte; passa pela hidro, as duas saunas, um jardim-de-inverno com a diminuta piscina. De repente, sobressalto: ouve soluços, gemidos nervosos, choro em convulsões, pranto engasgado. A moça loira jaz caída ao lado da cama, nua, olhos injetados, rosto vermelho, com marcas de poderosas mãos pelo corpo, um corte junto ao lábio inferior, as coxas machucadas. A moça olha para Marluce, expressão embotada, como se tivesse nascido naquele momento, como alguém que não sabe quem é ou, ao menos, o que era até chegar ali, abatida em ruína física e moral, tal um anjo caído. Parece estar em um outro mundo e apenas segue soluçando, as lágrimas já inexistentes, a saliva engrossando nos cantos da boca.

A loira, aparentando pedir clemência pelos erros que a levaram até ali, estende um tíbio braço em direção a Marluce, como um profano Adão no famoso afresco vaticano de Michelangelo. Marluce mecanicamente obedece. Senta-se no chão envolvendo a menina num abraço, ambas atônitas, os olhos marejados. A moça apóia a cabeça no peito da camareira e as duas permanecem longamente em silêncio, rodeadas apenas pelos lamentos da garota. Marluce lembra de sua própria infância. Entende que, finalmente, ainda que de forma excêntrica e inesperada, estava cuidando das dores de uma criança indefesa e órfã, como sempre havia sonhado.

-o-o-

Marluce continuou deitada em sua cama por mais algum tempo, sonhando com a imagem da débil moça no motel. Acordou às cinco horas, como fazia todos os dias. O despertador a fez voltar ao mundo e à sua vida, lembrando-a que lhe esperavam o ônibus, a novela, as noites solitárias e a farmácia, o caixa e os cartões dos clientes.

“Bom dia. É à vista ou parcelado?”.

Apesar de tudo, ela tinha sonhos.

FIM

(docemente inspirado em “Janaína”, Biquíni Cavadão)

Apesar de tudo, sonhos (segunda parte)

Marluce trabalhava de terça a domingo, alternando jornadas noturnas e diurnas. Por ordem do gerente, tornou-se a camareira "Luci" porque era um nome "mais sexy", segundo ele ("como se isso importasse no trabalho", ponderou a moça, que não insistiu no assunto. "Que ficasse Luci então").

Nos finais de semana, por causa do movimento, trabalhava dobrado. Procurava não pensar nos clientes mas, por vezes, invejava aquela gente, todos com seus pares. Fingia não ouvir os sons vindos dos quartos e ruborizava perante os colegas, principalmente homens, se ouvisse algo da trilha sonora emitida pelos amantes. Na semana do dia 12 de junho todos os empregados trabalhavam em horário dobrado já que os casais utilizavam ininterruptamente as suítes. No motel aqueles dias (bem como os finais de semana) eram conhecidos como semana (ou dias) CQ, “cama quente”, em alusão ao intervalo mínimo entre a estada de um casal e o seguinte. Marluce ficava hipnotizada com os bombons sobre a cama, simbolizando as boas-vindas aos namorados em seu dia, e com os enfeites em tons vermelhos, a tal “cor da paixão”. Sonhava com um príncipe que jamais viria mas que, em suas fantasias, a colocava na banheira de hidromassagem e a deitava naquelas grandes camas redondas – algumas com seus lençóis de elástico manchados ou puídos, mas que Marluce habilmente conseguia esconder para debaixo do colchão. Ordens da gerência.

Numa daquelas movimentadas noites, mandaram-na entregar um sorvete em uma das suítes. Logo após entrar, quando já ia deixando a bandeja sobre a mesinha da ante-sala, ouviu uma voz masculina indicando que levasse até junto à cama o pedido. Teve dúvida – já que isso não era o padrão – mas ao ouvir uma voz feminina insistindo na solicitação, resolveu atender. Ao entrar no quarto, deparou-se com um grande homem, completamente nu, com seu membro enrijecido. O homem olhava lascivo para Marluce e a convidava a se aproximar para “experimentá-lo”, perguntando se ela queria sentir “o que era bom”. Sentada em uma poltrona, a moça que a chamara ria descontroladamente da cena e de Marluce, que não sabia o que fazer. Os segundos pareceram séculos e ela apenas teve energia para voltar correndo e chorando para a área reservada do motel enquanto deixava para trás as gargalhadas do casal. O homem aproveitou a deixa que o crachá de Marluce lhe deu: “Volta aqui Luci, volta...”. Quando criou coragem, contou para as colegas o que havia acontecido. Ninguém acreditou nela e, se acreditaram, preferiram fingir que ela estava inventando. No dia seguinte todos os empregados do motel sabiam do ocorrido. Começaram a dizer que ela entrou no quarto de propósito; “Está vendo, Luci? camareira curiosa, dá nisso. Mas, me conta, como era?!?!?”.

A mãe, dona Elza, sempre lhe perguntava como estava o serviço mas Marluce pouco dizia. Após o episódio do exibicionista Marluce tornou-se mais reservada ainda. Odiava as piadinhas que era obrigada a ouvir. Diziam que camareira de motel era “uma raça muito bem-humorada porque sempre achava tudo gozado”. Não conseguia ver graça na piada já que aquela simples palavra, “gozado”, lhe agredia, bem como qualquer outro termo possivelmente relativo ao sexo ou aos órgãos sexuais, mesmo os mais distantes ou “técnicos”. Sentia-se mal no emprego mas financeiramente era o melhor que conseguira arrumar.

Num domingo à noite chegou um grande carro, cheio de neon e som bastante alto, “glamurosa, rainha do funk... poderosa, olhar de diamante...”. Algum MC? talvez um jogador... Sim, talvez fosse, mas os vidros negros escondiam os ocupantes. Na portaria pediram a suíte presidencial e os garçons fizeram muitas viagens entre a cozinha e a grande suíte. “Alô...aí, uísque, espumante, energético, mandem tudo o que tiver; hoje é dia de festa!”. Hóspedes desse tipo viravam notícia rapidamente no motel. Os garçons disseram ouvir mais de uma voz de homem; achavam que eram dois, mas talvez até três. O grupo levou um som portátil para a suíte e colocou a todo volume. Com eles, uma moça, com certeza apenas uma. Um dos garçons, o Marcos, viu a garota enquanto ela mexia no frigobar. “É aquela loira que aparecia no programa do Gugu, tenho certeza!”.

Passou rápido o tempo, já eram quase três da manhã. O movimento tinha diminuído, tudo estava bem tranqüilo. Marluce consegue descansar sentada num banquinho junto à entrada da cozinha. O som alto vindo da principal suíte incomoda os poucos hóspedes que ainda estão no motel. No entanto, o gerente manda deixar assim mesmo, orientando a telefonista: “a conta está bombando, inventa desculpas”.

(continua)

terça-feira, novembro 21, 2006

Apesar de tudo, sonhos (Primeira Parte)

Quando nasceu, Marluce já tinha seu destino definido: não seria ninguém, não faria nada de incomum: somente mais uma. Tornaria-se apenas “outro tijolo na parede” mas nem mesmo essa citação pop ela iria anunciar porque jamais ouviria Pink Floyd. “Pinqi quem?”, diria.

Mas Marluce tinha sonhos e, ainda menina, queria ser professora. Brincava de dar aulas para suas bonecas e, mais tarde, para duas priminhas – que ficavam sonolentas e desconcertadas com aquele falatório. Terminavam por chorar com a insistência da prima mais velha e o choro fazia acabar a brincadeira. Na adolescência, Marluce encontrou sua aspiração definitiva: decidiu ser médica pediatra, para curar um sobrinho que sofria de asma, e todas as crianças do mundo.

Aos dezesseis anos começou a trabalhar como empregada doméstica o que, é claro, não a satisfazia. Aos vinte, terminado o ensino médio, foi trabalhar de operadora de caixa em uma farmácia. Marluce ficou orgulhosa, acreditava que nesse emprego, ainda que de forma enviesada, estaria mais próxima da medicina e, em sua visão simples do mundo, quem sabe viraria atendente de balcão ou até mesmo farmacêutica... O tempo mostrou que talvez a medicina fosse um alvo longe demais e Marluce contentou-se em fazer um curso, quando o dinheiro desse (porque por enquanto ele só desce), de auxiliar de enfermagem.

O tempo foi passando e o máximo que conseguiu foi operar a máquina de cartões. “É crédito ou débito?”. Em casa, à noite, assistia à novela, se emocionava sem ter que viver. Não tinha namorado e isso, lá no fundo de seu silêncio, lhe incomodava um pouco. No entanto, os homens eram importantes mas em um segundo plano; seus sonhos profissionais vinham primeiro. Na hora de dormir ficava um bom tempo deitada, pensando no que não tinha acontecido. Procurava lembranças de aconchego mas não tinha como facilitar o presente vivendo de um passado que não houve. Sua sorte estava no futuro.

Em um domingo, após o sermão do pastor, uma amiga veio falar-lhe. Contou que tinha arrumado emprego como camareira em um hotel e que havia outras vagas. Tinha tíquete e tinha vale, além do salário ser quase o dobro. O horário não era fixo mas Marluce conseguiria juntar mais rapidamente o dinheiro do curso. “Onde é?”, “Perto, na Barra”. Ok. No final daquele dia, foi deitar-se apreensiva.

Segunda-feira de manhã, Marluce não foi para a farmácia. Ela e a amiga pegaram o ônibus, meia-hora pela linha amarela, Barra da Tijuca. O “hotel” da amiga era, na verdade, “um hotel de encontros amorosos”, como sua mãe dizia. Por um momento Marluce estacou. Afinal o que era isso em que a amiga lhe metia? “Anda Marluce, deixa de ser boba! É só um trabalho, virgenzinha!”. Marluce foi em frente, olhou em volta. Área examinada, moça analisada, emprego ofertado, trabalho aceito.

(continua)

quinta-feira, novembro 16, 2006

Meninas (Caminhos Diversos)

Jovens mulheres, boa parte com seus vinte e bem poucos anos, moças atléticas, meninas determinadas e vibrantes. “Meninas do vôlei”, expressão que nos acostumamos a utilizar designando, de modo carinhoso, as jogadores da seleção nacional de voleibol (e, no mesmo tom, os “meninos”).

Meninas que chamaram minha atenção. Mulheres que lutaram com louvor e me mantiveram acordado em várias madrugadas. Acreditei (acreditamos) que hoje poderia narrar a epopéia coroada pelo título. Áureas rainhas das quadras mas, por ora, brilhantes como prata - bela estampa, não se duvida. Merecem os mesmos aplausos que receberiam por conquistar o título da Copa do Mundo de vôlei. E aqui o lugar-comum enfim encontra seu espaço: um título que ficou com as russas mas, acaso ficasse com as brasileiras, também estaria em boas mãos. Um longo e profícuo caminho as espera.

Jovem mulher, vinte e um anos. Moça determinada, sonhadora - como centenas ou milhares de outras. As “meninas da passarela”, forma pela qual podem ser conhecidas, modelos em busca do pote de ouro, da beleza inatingível, da oportunidade que insiste em não chegar mas, quem sabe, pode estar no próximo contrato. Mulheres jovens mas em nada joviais.

Meninas do vôlei que voltam do Japão com a certeza do trabalho bem feito, da conquista do respeito, do desempenho esportivo em seu mais alto grau. Menina da passarela que um dia voltou cambaleante do Japão, onde a saúde claudicou pela primeira vez mas, ainda assim, continuou em busca da conquista do sucesso, do mesmo desempenho profissional em seu mais alto grau.

No vôlei, modelos de vitória, de profissionalismo, de trabalho bem trilhado e certezas de vitórias futuras. Nas passarelas e lentes de câmeras, estranhos modelos de beleza, insípida beleza torta, Guernica, cubista, modernista.

Meninas do esporte no bom caminho, rumo ao estrelato. A outra, Ana Carolina, para quem crê, se foi para o céu, inapelavelmente em meio às estrelas. E nada mais.

(ilustração: "As meninas Cahen d'Anvers" - Pierre Auguste Renoir, 1881)

segunda-feira, novembro 13, 2006

Moral da história: conheça seu advogado

Não é uma piada. À primeira vista é o que parece ser, mas não é; é sério. Ou, na verdade, deveria ser.

Pesquisamos no sistema interno de acompanhamento processual do tribunal e garanto que essa petição existiu. Embora não seja muito fácil - pois a chancela do protocolo ficou sobre o número do processo - é possível descobrir seu número. E buscando pela Vara do Trabalho no cabeçalho - décima-sexta - chegamos à confirmação: a doutora realmente cansou de entrar na Vara.

Acredite, é real. Imagine a festa que uma petição assim cria em qualquer juizado. Essa senhora é impagável. Nisso tudo, uma notinha de pesar: coitado do cliente!

Sem levar em consideração a apresentação - sabem aquelas petições ainda datilografadas à máquina? - e os milhões de erros ortográficos e de concordância, as partes que mais gosto são: "vem informar que de uma forma ou de outra" (!?!?!), "funcionários 'varistas' homossexuais, que têm muito" (ainda esculhamba com os pobres "varistas"), "conheço muito o direito, o errado e o certo" (!!) e, principalmente, "grandes constrangimentos com meu marido e ex-namorado" (peraí: com o marido e com o ex-namorado?!...).

E ótimo é o despacho, constrangido: "junte-se" (significa que a petição deverá ser juntada aos autos do processo, simplesmente, sem determinação alguma). Afinal, dizer o quê!?