terça-feira, novembro 28, 2006

Gente que brilha

Saiu na imprensa uma nova foto daquela francesa que no início do ano apareceu em TODAS as TVs do mundo por ter sido a primeira pessoa a sofrer um transplante de rosto. Pois está muito melhor, até com um sorriso de monalisa. Fico a imaginar tudo o que envolve tal cirurgia - não só a técnica mas a adaptação emocional. Incrível.

-o-o-

Li dia desses um texto sobre a Igreja Bola de Neve. Tal nome remete ao inescapável bordão "a igreja que não pára de crescer" que, ao que parece, é mesmo a intenção do fundador, o pastor, ou melhor, o (atual) apóstolo Rinaldo Pereira. Como a petição daquela advogada, alguns posts abaixo, parece brincadeira. (No site da Bola de Neve tem até o... "BolaNews"! Cada crente tem a igreja que merece)

-o-o-

Atesto que, sem margem de dúvida, o carioca é gente que brilha. Neste calor úmido (tipicamente carioca) que tem feito - dei uma caminhada um pouco maior que o normal pelo centro e, claro, observei muita gente - o carioca derrete, transpira todo, fica com a cútis brilhante que só vendo... Haja sabonete, adstringente e que tais.

sábado, novembro 25, 2006

Parônimos

Atualmente no Brasil o TRÁFICO de drogas funciona melhor que o TRÁFEGO aéreo.

Ou seria mais justo dizer que o tráfego de drogas é mais eficiente que o tráfico aéreo?

Desse jeito que está, onde tudo parece descontrolado, tanto faz; virou zona mesmo...

quinta-feira, novembro 23, 2006

Apesar de tudo, sonhos (terceira parte; final)

Finalmente a turba encastelada na suíte presidencial deu sinais de que iria partir, a arruaça arrefeceu. O som foi desligado e, para alívio e satisfação do gerente, a conta foi paga - embora, estranhamente, direto na saída do estabelecimento. Marluce foi enviada para arrumar a bagunça e (decerto) ver os estragos deixados; “esse pessoal joga as toalhas na piscina e até dentro do sanitário; uma droga...”.

Enquanto segue pelo longo corredor de serviço que leva até a suíte presidencial, Marluce ouve, vindo lá de fora, um som alto, música de gringo. No momento em que os homens deixam o motel ouvindo o rapper 50 cent e cantando os pneus da pick-up, Marluce abre a porta do quarto.

A pequena geladeira está aberta, bebidas encharcam o carpete e, no ar, além do pequeno lustre ainda balançando sobre a mesa de refeição, a camareira identifica o cheiro da erva delinqüente queimada. Apressa-se a secar o tapete e nota que lá dentro a TV ainda está ligada no “canal privé”. Isso não a incomoda mais; “sempre deixam nesse canal, parece que é de propósito”.

Com tédio, entra pela ampla suíte; passa pela hidro, as duas saunas, um jardim-de-inverno com a diminuta piscina. De repente, sobressalto: ouve soluços, gemidos nervosos, choro em convulsões, pranto engasgado. A moça loira jaz caída ao lado da cama, nua, olhos injetados, rosto vermelho, com marcas de poderosas mãos pelo corpo, um corte junto ao lábio inferior, as coxas machucadas. A moça olha para Marluce, expressão embotada, como se tivesse nascido naquele momento, como alguém que não sabe quem é ou, ao menos, o que era até chegar ali, abatida em ruína física e moral, tal um anjo caído. Parece estar em um outro mundo e apenas segue soluçando, as lágrimas já inexistentes, a saliva engrossando nos cantos da boca.

A loira, aparentando pedir clemência pelos erros que a levaram até ali, estende um tíbio braço em direção a Marluce, como um profano Adão no famoso afresco vaticano de Michelangelo. Marluce mecanicamente obedece. Senta-se no chão envolvendo a menina num abraço, ambas atônitas, os olhos marejados. A moça apóia a cabeça no peito da camareira e as duas permanecem longamente em silêncio, rodeadas apenas pelos lamentos da garota. Marluce lembra de sua própria infância. Entende que, finalmente, ainda que de forma excêntrica e inesperada, estava cuidando das dores de uma criança indefesa e órfã, como sempre havia sonhado.

-o-o-

Marluce continuou deitada em sua cama por mais algum tempo, sonhando com a imagem da débil moça no motel. Acordou às cinco horas, como fazia todos os dias. O despertador a fez voltar ao mundo e à sua vida, lembrando-a que lhe esperavam o ônibus, a novela, as noites solitárias e a farmácia, o caixa e os cartões dos clientes.

“Bom dia. É à vista ou parcelado?”.

Apesar de tudo, ela tinha sonhos.

FIM

(docemente inspirado em “Janaína”, Biquíni Cavadão)

Apesar de tudo, sonhos (segunda parte)

Marluce trabalhava de terça a domingo, alternando jornadas noturnas e diurnas. Por ordem do gerente, tornou-se a camareira "Luci" porque era um nome "mais sexy", segundo ele ("como se isso importasse no trabalho", ponderou a moça, que não insistiu no assunto. "Que ficasse Luci então").

Nos finais de semana, por causa do movimento, trabalhava dobrado. Procurava não pensar nos clientes mas, por vezes, invejava aquela gente, todos com seus pares. Fingia não ouvir os sons vindos dos quartos e ruborizava perante os colegas, principalmente homens, se ouvisse algo da trilha sonora emitida pelos amantes. Na semana do dia 12 de junho todos os empregados trabalhavam em horário dobrado já que os casais utilizavam ininterruptamente as suítes. No motel aqueles dias (bem como os finais de semana) eram conhecidos como semana (ou dias) CQ, “cama quente”, em alusão ao intervalo mínimo entre a estada de um casal e o seguinte. Marluce ficava hipnotizada com os bombons sobre a cama, simbolizando as boas-vindas aos namorados em seu dia, e com os enfeites em tons vermelhos, a tal “cor da paixão”. Sonhava com um príncipe que jamais viria mas que, em suas fantasias, a colocava na banheira de hidromassagem e a deitava naquelas grandes camas redondas – algumas com seus lençóis de elástico manchados ou puídos, mas que Marluce habilmente conseguia esconder para debaixo do colchão. Ordens da gerência.

Numa daquelas movimentadas noites, mandaram-na entregar um sorvete em uma das suítes. Logo após entrar, quando já ia deixando a bandeja sobre a mesinha da ante-sala, ouviu uma voz masculina indicando que levasse até junto à cama o pedido. Teve dúvida – já que isso não era o padrão – mas ao ouvir uma voz feminina insistindo na solicitação, resolveu atender. Ao entrar no quarto, deparou-se com um grande homem, completamente nu, com seu membro enrijecido. O homem olhava lascivo para Marluce e a convidava a se aproximar para “experimentá-lo”, perguntando se ela queria sentir “o que era bom”. Sentada em uma poltrona, a moça que a chamara ria descontroladamente da cena e de Marluce, que não sabia o que fazer. Os segundos pareceram séculos e ela apenas teve energia para voltar correndo e chorando para a área reservada do motel enquanto deixava para trás as gargalhadas do casal. O homem aproveitou a deixa que o crachá de Marluce lhe deu: “Volta aqui Luci, volta...”. Quando criou coragem, contou para as colegas o que havia acontecido. Ninguém acreditou nela e, se acreditaram, preferiram fingir que ela estava inventando. No dia seguinte todos os empregados do motel sabiam do ocorrido. Começaram a dizer que ela entrou no quarto de propósito; “Está vendo, Luci? camareira curiosa, dá nisso. Mas, me conta, como era?!?!?”.

A mãe, dona Elza, sempre lhe perguntava como estava o serviço mas Marluce pouco dizia. Após o episódio do exibicionista Marluce tornou-se mais reservada ainda. Odiava as piadinhas que era obrigada a ouvir. Diziam que camareira de motel era “uma raça muito bem-humorada porque sempre achava tudo gozado”. Não conseguia ver graça na piada já que aquela simples palavra, “gozado”, lhe agredia, bem como qualquer outro termo possivelmente relativo ao sexo ou aos órgãos sexuais, mesmo os mais distantes ou “técnicos”. Sentia-se mal no emprego mas financeiramente era o melhor que conseguira arrumar.

Num domingo à noite chegou um grande carro, cheio de neon e som bastante alto, “glamurosa, rainha do funk... poderosa, olhar de diamante...”. Algum MC? talvez um jogador... Sim, talvez fosse, mas os vidros negros escondiam os ocupantes. Na portaria pediram a suíte presidencial e os garçons fizeram muitas viagens entre a cozinha e a grande suíte. “Alô...aí, uísque, espumante, energético, mandem tudo o que tiver; hoje é dia de festa!”. Hóspedes desse tipo viravam notícia rapidamente no motel. Os garçons disseram ouvir mais de uma voz de homem; achavam que eram dois, mas talvez até três. O grupo levou um som portátil para a suíte e colocou a todo volume. Com eles, uma moça, com certeza apenas uma. Um dos garçons, o Marcos, viu a garota enquanto ela mexia no frigobar. “É aquela loira que aparecia no programa do Gugu, tenho certeza!”.

Passou rápido o tempo, já eram quase três da manhã. O movimento tinha diminuído, tudo estava bem tranqüilo. Marluce consegue descansar sentada num banquinho junto à entrada da cozinha. O som alto vindo da principal suíte incomoda os poucos hóspedes que ainda estão no motel. No entanto, o gerente manda deixar assim mesmo, orientando a telefonista: “a conta está bombando, inventa desculpas”.

(continua)

terça-feira, novembro 21, 2006

Apesar de tudo, sonhos (Primeira Parte)

Quando nasceu, Marluce já tinha seu destino definido: não seria ninguém, não faria nada de incomum: somente mais uma. Tornaria-se apenas “outro tijolo na parede” mas nem mesmo essa citação pop ela iria anunciar porque jamais ouviria Pink Floyd. “Pinqi quem?”, diria.

Mas Marluce tinha sonhos e, ainda menina, queria ser professora. Brincava de dar aulas para suas bonecas e, mais tarde, para duas priminhas – que ficavam sonolentas e desconcertadas com aquele falatório. Terminavam por chorar com a insistência da prima mais velha e o choro fazia acabar a brincadeira. Na adolescência, Marluce encontrou sua aspiração definitiva: decidiu ser médica pediatra, para curar um sobrinho que sofria de asma, e todas as crianças do mundo.

Aos dezesseis anos começou a trabalhar como empregada doméstica o que, é claro, não a satisfazia. Aos vinte, terminado o ensino médio, foi trabalhar de operadora de caixa em uma farmácia. Marluce ficou orgulhosa, acreditava que nesse emprego, ainda que de forma enviesada, estaria mais próxima da medicina e, em sua visão simples do mundo, quem sabe viraria atendente de balcão ou até mesmo farmacêutica... O tempo mostrou que talvez a medicina fosse um alvo longe demais e Marluce contentou-se em fazer um curso, quando o dinheiro desse (porque por enquanto ele só desce), de auxiliar de enfermagem.

O tempo foi passando e o máximo que conseguiu foi operar a máquina de cartões. “É crédito ou débito?”. Em casa, à noite, assistia à novela, se emocionava sem ter que viver. Não tinha namorado e isso, lá no fundo de seu silêncio, lhe incomodava um pouco. No entanto, os homens eram importantes mas em um segundo plano; seus sonhos profissionais vinham primeiro. Na hora de dormir ficava um bom tempo deitada, pensando no que não tinha acontecido. Procurava lembranças de aconchego mas não tinha como facilitar o presente vivendo de um passado que não houve. Sua sorte estava no futuro.

Em um domingo, após o sermão do pastor, uma amiga veio falar-lhe. Contou que tinha arrumado emprego como camareira em um hotel e que havia outras vagas. Tinha tíquete e tinha vale, além do salário ser quase o dobro. O horário não era fixo mas Marluce conseguiria juntar mais rapidamente o dinheiro do curso. “Onde é?”, “Perto, na Barra”. Ok. No final daquele dia, foi deitar-se apreensiva.

Segunda-feira de manhã, Marluce não foi para a farmácia. Ela e a amiga pegaram o ônibus, meia-hora pela linha amarela, Barra da Tijuca. O “hotel” da amiga era, na verdade, “um hotel de encontros amorosos”, como sua mãe dizia. Por um momento Marluce estacou. Afinal o que era isso em que a amiga lhe metia? “Anda Marluce, deixa de ser boba! É só um trabalho, virgenzinha!”. Marluce foi em frente, olhou em volta. Área examinada, moça analisada, emprego ofertado, trabalho aceito.

(continua)

quinta-feira, novembro 16, 2006

Meninas (Caminhos Diversos)

Jovens mulheres, boa parte com seus vinte e bem poucos anos, moças atléticas, meninas determinadas e vibrantes. “Meninas do vôlei”, expressão que nos acostumamos a utilizar designando, de modo carinhoso, as jogadores da seleção nacional de voleibol (e, no mesmo tom, os “meninos”).

Meninas que chamaram minha atenção. Mulheres que lutaram com louvor e me mantiveram acordado em várias madrugadas. Acreditei (acreditamos) que hoje poderia narrar a epopéia coroada pelo título. Áureas rainhas das quadras mas, por ora, brilhantes como prata - bela estampa, não se duvida. Merecem os mesmos aplausos que receberiam por conquistar o título da Copa do Mundo de vôlei. E aqui o lugar-comum enfim encontra seu espaço: um título que ficou com as russas mas, acaso ficasse com as brasileiras, também estaria em boas mãos. Um longo e profícuo caminho as espera.

Jovem mulher, vinte e um anos. Moça determinada, sonhadora - como centenas ou milhares de outras. As “meninas da passarela”, forma pela qual podem ser conhecidas, modelos em busca do pote de ouro, da beleza inatingível, da oportunidade que insiste em não chegar mas, quem sabe, pode estar no próximo contrato. Mulheres jovens mas em nada joviais.

Meninas do vôlei que voltam do Japão com a certeza do trabalho bem feito, da conquista do respeito, do desempenho esportivo em seu mais alto grau. Menina da passarela que um dia voltou cambaleante do Japão, onde a saúde claudicou pela primeira vez mas, ainda assim, continuou em busca da conquista do sucesso, do mesmo desempenho profissional em seu mais alto grau.

No vôlei, modelos de vitória, de profissionalismo, de trabalho bem trilhado e certezas de vitórias futuras. Nas passarelas e lentes de câmeras, estranhos modelos de beleza, insípida beleza torta, Guernica, cubista, modernista.

Meninas do esporte no bom caminho, rumo ao estrelato. A outra, Ana Carolina, para quem crê, se foi para o céu, inapelavelmente em meio às estrelas. E nada mais.

(ilustração: "As meninas Cahen d'Anvers" - Pierre Auguste Renoir, 1881)

segunda-feira, novembro 13, 2006

Moral da história: conheça seu advogado

Não é uma piada. À primeira vista é o que parece ser, mas não é; é sério. Ou, na verdade, deveria ser.

Pesquisamos no sistema interno de acompanhamento processual do tribunal e garanto que essa petição existiu. Embora não seja muito fácil - pois a chancela do protocolo ficou sobre o número do processo - é possível descobrir seu número. E buscando pela Vara do Trabalho no cabeçalho - décima-sexta - chegamos à confirmação: a doutora realmente cansou de entrar na Vara.

Acredite, é real. Imagine a festa que uma petição assim cria em qualquer juizado. Essa senhora é impagável. Nisso tudo, uma notinha de pesar: coitado do cliente!

Sem levar em consideração a apresentação - sabem aquelas petições ainda datilografadas à máquina? - e os milhões de erros ortográficos e de concordância, as partes que mais gosto são: "vem informar que de uma forma ou de outra" (!?!?!), "funcionários 'varistas' homossexuais, que têm muito" (ainda esculhamba com os pobres "varistas"), "conheço muito o direito, o errado e o certo" (!!) e, principalmente, "grandes constrangimentos com meu marido e ex-namorado" (peraí: com o marido e com o ex-namorado?!...).

E ótimo é o despacho, constrangido: "junte-se" (significa que a petição deverá ser juntada aos autos do processo, simplesmente, sem determinação alguma). Afinal, dizer o quê!?

domingo, novembro 12, 2006

Sombrinha do Seqüestro

Esse post iria chamar-se "Homens em pleno ataque de nervos", parafraseando Almodóvar e seu "Mulheres à beira...". Seria um bom e adequado nome, mas vale a pena salientar um peculiar aspecto em meio ao desatino.

A questão é que, em vista dos diversos ataques contra mulheres que têm ocorrido, parece que os homens enlouqueceram. Dia esses, em São Paulo, um sujeito se trancou numa loja por horas e horas, com a mulher e a amante (!). Ao cabo do imbróglio, matou a amante (ou foi a esposa?) e se matou. Um doido. Nesta semana, um ex-namorado deu vários tiros na ex. Um louco. Também uma mulher, em frente à filha de três anos (...) foi assassinada por dois homens, quando saia de casa pela manhã. O principal suspeitíssimo de encomendar a execução: o ex-marido, pai da garotinha! Um desvairado.

E na sexta-feira esse sujeito, que virou até manchete internacional, seqüestrando um ônibus, armado de revolver numa mão e puxando (pelos cabelos) a ex-mulher na outra, por que ela o deixou e, pelo que consta, o traiu. O jornal O Globo deste último sábado contou que o pessoal que passava nos outros ônibus gritava insultos para o ex-marido "descontrolado". Certamente referências a galhos na testa e similares. Constou também que o "desnorteado" ex-cônjuge chegou a exigir que seu nome não fosse revelado, já prevendo a pecha que iria levar. Mas André Luís Ribeiro da Silva, não teve jeito não: seu nome foi parar na agência Reuters, EFE, na CNN, El Clarín, imBLOGlio carioca, La Nación e todos os jornais do Brasil. Agora "guenta"...

Em meio à balbúrdia criada no entorno do ônibus parado à beira da estrada, com o marido ciumento mantendo a ex-mulher e alguns passageiros como reféns, eis que surge um vendedor de sombrinhas, aproveitando o clima chuvoso que insiste em manter-se sobre o Rio. E demonstrando um dos motivos porque o Brasil faz tanto sucesso no futebol e tem samba no pé (jogo de cintura!), lá ia o vendedor satisfeito com o lucro - cerca de sessenta sombrinhas vendidas - anunciando seu produto: "olha a sombrinha do seqüestrooo, quem vai querer a sombrinha do seqüestroooooow!?!?!?!?!!" !

(Pois é esta, sim, a verdadeira marca e face do povo brasileiro, como escreveu Caetano Veloso: "isso aqui, ô, ô, é um pouquinho de Brasil iaiá... desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz... É também um pouco de uma raça que não tem medo de fumaça ai, ai e não se entrega não...")

quinta-feira, novembro 09, 2006

Gaia

No post anterior citei uma de "muitas histórias" do "longo final de semana". Pois vamos a uma outra delas, que servirá como ponte para um assunto de urgência, talvez a maior de todas a que tenhamos nos deparado.

Dias atrás desencavei um livro que havia comprado há vários anos, com artigos de Arthur Clarke (autor de "2001, Uma Odisséia no Espaço" e que depois Stanley Kubrick levou para o cinema) chamado "O Terceiro Planeta". Muitos dos artigos - sempre envolvendo tecnologia e a conquista espacial - foram escritos nos anos 60. No livro, editado uns vinte anos depois, já nos anos 80, Clarke faz breves comentários no início de cada texto, observando o que havia previsto e em que pé estavam as coisas. Homem ligado à ciência, ele já previa muitas das conquistas incríveis da tecnologia e, em especial, a importância que os computadores teriam em nosso dia-a-dia, como ferramenta de trabalho, lazer e pesquisa.

Os textos me impressionaram principalmente em comparação com o que veio a ocorrer na quinta à noite: chega em minha casa um casal amigo, de Belo Horizonte, e que estava hospedado em um hotel na praia da Barra. Aparecem com um aparelho de dimensões próximas a uma caixa de CD: um GPS! um GPS funcionando (enfim!) no Brasil, no Rio em particular. Muito já vi e li sobre isso mas funcionando nunca havia presenciado, quanto mais por essas bandas. Se você ainda não viu, tenha certeza: impressiona muito. Os mapinhas e a mocinha (em um português bem claro) vão lhe encaminhando metro a metro, com perfeição. E assim os dois vieram da Av. Sernambetiba até minha casa como se aqui morassem desde sempre. Coisas da tecnologia para nenhum Arthur Clarke colocar defeito.

Mas Clarke também já se preocupava com a "habitabilidade" da Terra. Citava então que o planeta estava bastante repleto de seres humanos (três bilhões) e que chegaria lá pelo ano 2000 com o dobro (coisa que acertou na mosca).

E agora estamos aqui, rumando para o final da primeira década do século XXI, e também às portas do que pode ser o fim "da odisséia humana na Terra" (Banda Eva).

Sobre isso pouco mais falarei pois o que poderia dizer já está escrito no atual post do blog "La vie est belle" de Teresa Abreu, diretamente lá de Paris. Recomendo, vigorosamente, sua leitura. (link à direita)

Nesse assunto fico a pensar nos dinossauros, os quais vemos muitas vezes como "incidentes biológicos" sobre a Terra ou ao menos como criaturas excêntricas e que atualmente servem, fundamentalmente, para embalar as fantasias juvenis. No entanto, dominaram esse planeta (que não podemos esquecer, não é nosso!!) por mais de 100 milhões de anos. Estamos aqui há algumas dezenas de milhares de anos (sendo que a "História" não tem mais de uns... 10 mil anos) e já estamos prontos para nos eliminar, dando lugar para outros.

terça-feira, novembro 07, 2006

Em contraponto àquela etiqueta

Longo final de semana rende muitas histórias. Entre diversas, uma específica: sábado à noite no “Gente Fina - Bar & Lounge”, Leblon (por sinal um lugar interessante para os maiores de 30 e poucos anos. Embaixo, bar moderninho; em cima boate sem pitboys e sem aquele clima cafoninha e repetitivo ‘festa ploc’. Ou seja, sem gente brega e sem mentecaptos). Estava em um grupo de quatro casais mas, no momento, encontrava-me de pé, conversando com um amigo, junto à saída.

Surge, vinda do interior do bar, uma moça de uns 35/40 anos e, digamos, "simpática e elegante", a qual me lembrou a Cicarelli, mas sem o bocão.

Cica chega com um sujeito mais velho e encontra com dois rapazes na entrada do bar. Os dois sujeitos, reparei por acaso, também boa-pintas.Cica toda animada, exclama: “Ah, que bom! Meu ex-marido [o coroa que apareceu com ela e que depois descobri ser um dos donos do local], meu ex-namorado e meu namorado!!”. E subiram para a boate os quatro, todos felizes... Ficamos, os dois à porta, “de cara”...

É o tal do Girl Power, é?...

(A propósito da ilustração: " 'Rosie the Riveter' [pesquisei: a 'rebitadeira'] is a cultural icon of the United States, representing the six million women who worked in the manufacturing plants which produced munitions and material during World War II. This character is now considered a feminist icon in the US")

quinta-feira, novembro 02, 2006

Um de queijo e depois o chocolate

Não viajar no feriadão tem suas vantagens. Entre as mais óbvias e repetidas nos jornais locais está o trânsito civilizado, cinemas e/ou teatros sem filas, idem quanto aos supermercados, calçadões nas praias ou lagoa, etc. Mas também é um dia, quanto mais nessa quinta-feira com sua chuva intermitente, em que se pode ler "a fundo" o jornal. Mas ler página a página tem, pensando bem, seu ônus. Por quê? bem, a gente fica tentado a escrever sobre o que lê. Vejamos.

Tem o caos nos aeroportos com longas esperas para embarcar já que os controladores reinvindicam melhores condições de trabalho. Tem a notícia que, acessória, segue a anterior: a INFRAERO já havia avisado o governo, há três anos (!) sobre o funcionamento "no limite" do sistema de controle aéreo nacional. O ministro da defesa (que, por sinal, não me passa firmeza, o tal de Waldir Pires) disse que "não sabia"!!! Lula deve estar satisfeito; sua cartilha foi aprendida... Virando a página, tem o fato dos leitos hospitalares terem diminuído nos últimos cinco anos (tristeza pouca é bobagem); tem o descalabro da louca que, ao sair do caixa eletrônico, ateou fogo numa idosa porque ficou revoltada quando viu que o INSS não havia depositado sua pensão... E a outra doida que deu uma mamadeira com cocaína para a filha de 1 ano e três meses?? ao chegar à prisão, as detentas, avisadas do bárbaro infanticídio, cuidaram de colocar em prática o antigo (e, cá entre nós, muitas vezes sábio) Código de Hamurabi, aquele do "olho por olho"; está agora num hospital, em coma, com hematomas, fraturas e coisas do gênero. E por fim, para dar um toque menos bairrista às notícias, que tal o senador John Kerry e sua incrível inabilidade ao dizer para um grupo de jovens que estudassem direito porque senão iriam acabar "empacados no Iraque", chamando, pois, os soldados americanos que lá têm morrido às centenas (em outubro foram 104) de burros ignorantes? teve, é claro, que pedir desculpas etecétera e tal.

Então, ler jornal é isso. Essas notícias trepidantes e mais um sem número de escândalos, acidentes naturais, campanha política nos EUA ou uma que li há pouco: "epidemia de obesidade na Europa até 2010". Cruz credo.

Chego à conclusão (do post e quanto às idéias): melhor é falar do meu périplo atrás de queijo para fondue; fui a cinco supermercados, do botafogo até o leblon e "nada, nada, nada...". Por fim achei-o e fica a certeza (e uma boa manchete para colocar no lugar das outras): "Cariocas aproveitam o feriadão para se entregar à culinária suíça". Não atesto a veracidade da notícia, mas ao menos é saborosa, reune os amigos e é romântica, pois "a gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor".

terça-feira, outubro 31, 2006

Houve um anjo no meio do caminho. Ainda bem.

No final de semana li que algumas famílias daqui do Rio já instituíram um "código de emergência" contra os telefonemas-trotes, cada vez mais comuns, que noticiam um acidente com algum "ente querido". (Para quem está longe e ainda não sabe, bandidos - muitas vezes de dentro de prisões! - ligam aleatoriamente para um número e, inventando uma história qualquer [se dizendo ser da companhia telefônica, por exemplo], obtêm informações sobre os moradores da casa e depois se colocam a fazer chantagem. Noutras vezes se dizem ser do corpo de bombeiros ou da polícia e que estão com um "ente querido" desfalecido em algum acidente na rua. Pedem para confirmar tipo do carro e nome de pessoas - geralmente filhos - e, de posse dessas informações, exigem dinheiro). Algumas famílias, portanto, criaram códigos, como dizer que está com asma ou outra frase qualquer, que provem que a pessoa está, realmente, em poder de seqüestradores. (É assim a vida na selva; não se assustem, vocês de longe)

Estava a pensar sobre esses casos e lembrei de algo incrível que ocorreu há algumas semanas. Encontrávamos eu e um amigo, além de nossas mulheres, em um bar na gávea. Eu e ele conversávamos justamente sobre esses casos de trotes quando seu celular tocou. Ele examinou, o número era "oculto" (como costuma ser nesses casos de extorsão) e era uma ligação a cobrar (como sempre é). Resolveu não atender. Não demos muita bola para isso, continuando a conversar. Uns dez minutos depois, toca novamente. Nova ligação de número oculto e a cobrar. Ele atende. Foi inacreditável: "Boa noite... aqui é do corpo de bombeiros. O senhor possui algum ‘ente querido’ (não sei o motivo de sempre dizerem "ente querido") na rua a essa hora?". Meu amigo solicitou algumas informações e o sujeito acabou desligando. Então, não custa lembrar: não acreditem em ligações terroristas. Certifiquem-se sobre qualquer informação antes de tomar qualquer medida. Se começarem a fazer ameaças, simplesmente desliguem.

Mas para não ficar só nesse tema sombrio e inoportuno (mas de citação necessária para a prevenção), mudo absolutamente de foco, mirando um assunto que nos faz ser gente de verdade e não apenas bestas vestidas:

Hoje, 31 de agosto, Carlos Drummond de Andrade faria, se estivesse vivo, 104 anos. Um mineiro que aos trinta e poucos anos veio morar no Rio de Janeiro e que soube, como poucos, observar a alma humana, nosso comportamento, suas aspirações, tristezas e paixões. A conflituosa rotina da vida, aqui e alhures, fê-lo (ih, me inspirei!) escrever o "Poema de sete faces" onde, já em sua primeira estrofe, Drummond demonstrava o embate entre seu interior e o mundo: "Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos!, ser gauche na vida." (do francês, "esquerdo", "torto", "inepto", ou seja, neste sentido, aquele que está à margem da realidade e com ela tem dificuldade de se comunicar).
No turbilhão do cotidiano, são esses "gauches" que nutrem nossa alma de energia, bem-estar e esperança. Escrevi que o poeta e cronista Carlos Drummond completaria 104 hoje. Mas ele está aqui, de fato, já que sua mensagem (sua essência) está à nossa volta, para sempre. Amém.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Sinal dos tempos? mas quais?

Não sei se é a etiqueta dos novos ou dos velhos (e bons?) tempos mas acho que cada coisa (e cada um) tem seu lugar. Daí que, talvez, o fabricante esteja certo...

Pensem sobre isso no final de semana, entre um enxágüe e outro... hehehe

quinta-feira, outubro 26, 2006

Fogueira sem muitas vaidades

Hoje fez um daqueles dias de Rio-Rio (explico a ênfase: Rio, quando é mais Rio. Explico a explicação: um calor dos diabos! 'tendeu?).

E por causa do calor senegalesco, o caso: "Mendigos invadem Souza Aguiar [para os de longe: um dos maiores - talvez o maior - hospital público com emergência dessas paragens] para tomar banho". Na verdade, um grupo de 15 "homeless" (agora tô gostando desse termo, notaram?) entrou no pátio da emergência do hospital e se dirigiu para banheiros químicos a fim de se refrescar devido ao grande calor que fez na cidade nesta quinta-feira. Os guardinhas do hospital foram lá e expulsaram a turma toda, homens e mulheres acalorados.

E quem que a notícia me trouxe à mente? pois é... a dona Maria Dora deve estar cheia de certezas por essa hora, do tipo "eu não disse?!?!".

Agora, e essa expressão que usei ali em cima, "calor senegalesco"? eu queria saber o por quê de sempre citar o pobre do Senegal numa hora dessas. Ok, é claro que é um país quente e africano (acho que cometi uma redundância). Mas por que não citar tantos outros que lá há?

Pois sentencio aqui, e assim ficará: hoje no Rio fez um calor congolês, serra leonês, egípcio (taí, boa lembrança), marroquino, moçambicano e por aí vai.

terça-feira, outubro 24, 2006

Máscaras

A questão já tinha me afligido dia desses. “Afligir” é, decerto, termo exagerado, mas empresta impacto à assertiva. Tinha, na verdade, apenas pensado sobre o assunto, imaginando o que seria melhor para o convívio: se pessoas medianamente equilibradas até onde sabemos (e aí vai surgindo o problema) ou pessoas declaradamente fora de um padrão médio de “normalidade”, com algumas opiniões medianas, politicamente corretas (e “politicamente” é palavra, por seu turno, muito bem aplicada), mas que, vez por outra, tomam atitudes e posicionamentos dramáticos, difíceis de engolir ou defender.

A questão, numa abordagem ampla, antes de rumar para o particular, é a seguinte: o que é preferível, políticos como Alckmin e Lula que mantêm “as aparências”, têm discursos corretos, mas TODOS sabem que – se não pessoalmente certamente seus partidos, personificados em seus membros – têm lá seus intentos nebulosos, inescusáveis, inconfessáveis; ou preferível é o político (na verdade “para-político”, não políticos profissionais) como o general João Figueiredo que, sem o peso das urnas para lhe aporrinhar, dizia, no focinho de qualquer um, que “preferia o cheiro dos cavalos ao do povo”?

É claro que tal questão é meramente retórica. Com alguma rara exceção, preferimos Lula, Collor, Sarney, FHC ou até mesmo Garotinho (aaargh!) àqueles oficiais comandantes, mandando em tudo. Mas, retirando a questão dos “desígnios da Nação”, ficamos com algo mais flat, mais específico: melhor são pessoas agradáveis, mas fingidas, ou pessoas “rudes” porém transparentes, verdadeiras, do tipo “sabemos onde estamos pisando”? É uma questão...

No entanto, ao cabo de tanta argumentação, não era esse o ponto a que procuro chegar. Junto a isso tudo, surge em minhas silenciosas ponderações ao volante a dona Maria Dora, cuja reação à bala a um assalto, no bairro do flamengo, vem tomando manchetes da editoria Rio dos jornais e telejornais. O assunto foi bem abordado – e contado – no “zeromeiaum” (link aí à direita) da Patrícia Cunegundes, em seu post cujo título dá perfeita noção da opinião da autora e, espero, de grande maioria: “O fascista que existe dentro de cada um de nós”. Em resumo, é o seguinte: após reagir à bala a um assalto, a senhora de 67 anos foi condecorada (tenho urticária do povo do Viva Rio e seus direitos humanos para os bandidos, mas tal ato da Câmara é muito discutível...) pela Câmara dos Vereadores carioca, com uma medalha por bravura ou algo que o valha. Durante a solenidade, ontem, disse a senhora que não admite mendigos (“homeless”, para os distantes) em sua rua e que esses despossuídos deveriam ser colocados num navio e “despejados” em alto-mar.

Bom: a questão inicial (a reação à bala) é por muita gente aplaudida – todos conscientes do perigo etc e tal – inclusive por mim. A condecoração é discutível. Agora, essa declaração? Não dá para defender, embora...

E aqui retorno ao mote inicial: é tanta mentira, tanta falsidade, são tantas máscaras e falta de hombridade... Essa dona Maria Dora expôs sua opinião, dura, crua, dramaticamente “anti-política”, fascista. Mas, ao menos, é uma verdade! A personalíssima e indefensável verdade da dona Maria mas, na qualidade de verdade, quase uma redenção: alguém diz publicamente sua verdade! Dona Maria, sempre de cara fechada – ao menos nas fotos – declara (talvez pela isenção que sua idade já concede): “eu sou assim e acho isso”. (Espero não ler na manchete do dia seguinte a dona Maria se explicando. Cairia por terra essa Vênus do avesso, anti-heroína chamuscada, Derci do balneário).

E ficamos assim: loas para uma verdade, ainda que tão desarrazoada.

Um novo dia. Eis o que é.

Rio de Janeiro, 24 de outubro, 6 da matina. Rio, terra, mar e ar. Tudo o que temos. E vamos nessa; "vem, vambora", como diz a Calcanhoto.

segunda-feira, outubro 23, 2006

"Procura outro. Esse aqui eu vi primeiro"

Minha gente, não posso deixar de citar mais essa notícia. Dessa vez não é em algum jornal ou site obscuro. Está n' O Globo de hoje, segunda-feira.

"Bando leva carro na Tijuca que já estava em poder de assaltantes" - "Nem os bandidos estão livres de assaltos no Rio. Em um caso considerado inusitado até pela polícia, assaltantes levaram na noite de sábado um carro que já estava em poder de criminosos. No veículo, as quatro vítimas (rendidas minutos antes - um casal de irmãos com seus filhos) acompanharam a concorrência dos bandidos. (...) Rendidos por dois homens armados com revólveres, foram levados pela dupla. Quinhentos metros depois o Astra foi fechado por um Peugeot 206, do qual desceram três homens armados com pistolas. Ao ser abordado, o bandido ao volante disse que o carro já estava sendo roubado (!!!!), mas foi tirado à força do veículo pelo rival. O cúmplice do primeiro ladrão desceu correndo, levando bolsas e celulares, mas deixando sua arma para trás. Após as vítimas descerem do carro, o segundo bando fugiu com o carro" (que foi encontrado abandonado, na manhã de domingo, ainda na Tijuca).

A frase (algo assim) "Ae cumpadi, sai fora porque eu já sou o assaltante desse carro aqui", é antológica. E não posso deixar de expressar: "a que ponto chegamos...".

domingo, outubro 22, 2006

Vitórias

Essa vitória de Felipe Massa lembrou as históricas conquistas do mítico Ayrton Senna. O gesto de Massa, ao parar logo após a linha de chegada e pegar a primeira bandeira brasileira que lhe ofereceram – imagem embalada pelo indefectível “tema da vitória” – fez sentir saudades de Senna e me lembrou daquele domingo de maio de 1994, quando fui passar o final de semana em Teresópolis para um churrasco de aniversário. Antes de partir, na sexta à noite, tomei a precaução de me certificar se havia, ou não, TV na casa. Como não havia, levei uma de 14 polegadas para assistir à corrida no domingo cedo e, através nela, vi a morte do ídolo. E chorei bem ali, sentado no sofá da sala, com muita tristeza e desalento, como se alguém muito caro e próximo estivesse ali, morto.
É sempre bom ver uma vitória brasileira em qualquer esporte e nós, meninos embalados pelas vitórias de Nelson Piquet e principalmente de Ayrton Senna (sem esquecer do Emerson) nos sentimos felizes de poder sonhar com novo tempo de vitórias num esporte tão “primeiro mundo”.

Foi muito bom rever a bandeirinha no cockpit e ouvir o “tamtamtam, tamtamtam”!

-o-o-

O Mengão também venceu - e bem - o que fez do domingo (embora chuvoso) um dia nota 10!

quinta-feira, outubro 19, 2006

Jeitinho, uma pitada de malandragem e (falta de) graça

“... mas não vou acender agora. Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora.”
“... que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa...”

Na segunda-feira cumpri o ritual. Postei-me na fila do consulado, ali no início da rua México, para horas e horas de espera, e senha, e outra fila, e guichê, e digital no leitor ótico, espera de novo, senta, conversa, muda de lugar e, lá pro início da tarde, uma entrevista de um minuto, se tanto. Pronto, agora tenho visto renovado. Uncle Sam, here we go again.

Como alguns de vocês talvez tenham lido lá no texto “One day at the races e...”, procuro, na medida do possível, fazer de uma falta (um problema ou contratempo) algo que dê prazer. Dessa forma, se você não é alguém muito, muito famoso, a fila do consulado americano é a opção única para obtenção do salvo-conduto para os EUA. E como todos sabem, é uma fila “de responsa”. Mas diferente de todo mundo, eu não sabia. Ou melhor, sempre soube que era longa (e já a enfrentei mais de uma vez) mas cultivava a esperança de estar um pouco melhor, mais célere. Tanto que ao deixar o carro ali perto, na avenida Beira-Mar, disse pro guardador “deixa pra volta, não vou demorar!”... Bom, já que a espera era inevitável, "vem, vambora" relaxar (diria a Calcanhoto).

Cheguei por volta das 8:30 da madrugada. A fila tinha uns 20 metros, algo assim. Primeira providência: arrumar os tais formulários para preencher ali mesmo e que ainda não os tinha (naquela manhã, bem cedo, a lei de Murphy havia me atingido: fui imprimir em casa os formulários e... acabou a tinta! Perigo, perigo! estresse, estresse!). Obtidos os formulários, hora de preencher. Perguntas de praxe e aquelas questões sobre querer praticar algum atentado nos states ou ter participado de algum genocídio. Não, não, não! Nego tuuudo!

Pronto, consegui ocupar meus 10 primeiros minutos de espera. E agora? À minha frente, um jovem casal, uns 30 anos. O rapaz parecendo paulista, terno elegante, gel no cabelo, rosto escanhoado, óclinhos. A moça seguindo o padrão “jovem advogada” ou jovem-profissional-de-qualquer-área-na-qual-se-deve-impressionar-positivamente-o-cliente. Bem postados, na vida e ali, resignadamente na fila. Logo atrás, um casal levemente passados dos 50 anos. Noto uma leve aflição nesses últimos e escuto seu dilema: “você me espera aqui; eu vou ao banco pagar a taxa”; “tá... tem uma agência [do Citibank – único lugar onde se pode pagar a taxa de US$ 100] lá na rua da Assembléia”. Intrometo-me, com o espírito samaritano: “olha, tem uma agência nova aqui perto, na Araújo Porto Alegre, logo ali ó, à direita”. Mas saliento que àquela hora (quase nove) estaria fechada; “só às 10”. Eles entendem que (apenas) a nova agência abriria às 10 horas já que o senhor diz, “ahhh... passei pela outra agência, já está aberta...”. Aberta?? É óbvio que não! Decerto viu alguém entrando para os caixas automáticos e presumiu os caixas humanos funcionando. Fico desconcertado. Onde vive essa gente que não sabe o horário bancário? Coisa incrível... Pelo sim, pelo não, dentro de alguns minutos parte a senhora, sabe-se lá para qual agência.

“Já pagou a taxa?”, perguntam uns camaradas que percorrem a fila, mostrando uma folha de taxa paga. Já, já, já, já, todos pagaram. Surgem outros: “tem foto? tem foto?”. O senhor de trás, agora sozinho, não tinha. “Mas vou esperar minha mulher voltar”. “Não, não, vamos logo, é rapidinho”. “Onde?”. “Ali, do outro lado [da rua]”. Foram. Observo. No meio da calçada do lado de lá um fundo branco grudado com ventosas na fachada do prédio decano faz o trabalho de estúdio. Momentos depois, quando volto a olhar, já vem voltando o senhor com a foto para o passaporte. Valor da película: vin-te reais. É aquilo: “vou apertar mas não vou acender agora”.

Sem contar os cambistas de taxa e foto, tem ainda, já há longa data, a barraquinha para guarda de volumes (bolsas, celulares, et al) que não podem adentrar o consulado. Até onde sei, o barraqueiro já teve seus dias de glória. No entanto há alguns meses o Cônsul se dispôs a guardar os badulaques do povo. Ainda assim, resiste lá a barraca à espera de algum incauto, provavelmente.

No meio disso tudo, a moça jovem-advogada resolve se mexer. Afinal já estamos há cerca de uma hora por ali. Bem à minha frente, saca o celular. Na altura dos olhos começa a escrever uma mensagem a qual, em explícita invasão de privacidade e da qual não consigo fugir, sou obrigado a ler. “Fulano, estou passando mal, só vou trabalhar à tarde. Se alguém perguntar por mim, me avise”. Ora, ora, mentindo hein, garota?... Por que não dizer, com antecedência, “olha na segunda, dia tal, daqui a dois meses, vou ter que ir ao consulado, blábláblá”? Continuando assim, sua carreira não vai longe lá no escritório...

Mensagem enviada, hora de cuidar da aparência (somos do terceiro mundo mas somos arrumadinhos). Mocinha saca seu espelho de maquiagem; pega uma pinça no fundo da bolsa; encosta-se no muro baixo que circunda o consulado e põe-se a fazer as sobrancelhas! Assim, no meio da rua, “tô nem aí, tô nem aí”. O noivo (isso descobri depois) impávido, aparentemente achando normal. Ih, esse vai sofrer. “... mais cheia de graça (...) num doce balanço, a caminho do mar...”

Bom, lá dentro, é aquilo que já disse: entra numa filinha, dá papel. Senta; vai num guichê, digital; volta para a fila e no final conversa um minuto e vai embora. Mas não sem mais uma pitada do jeitinho: faltam poucos para serem atendidos. Uma menina à minha frente comenta algo com um segurança do consulado sobre a longa espera. Ele diz, para todos nós: “Ah, mas agora é melhor, fica mais fácil. Eles (os gringos da entrevista) já estão mais cansados, são menos rigorosos”. “Hum, será?”, penso.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Chup, chup, chup

Olha, quem levantou essa bola não fui eu. Podem colocar na conta da Patrícia Cunegundes que, em seu ótimo blog “zeromeiaum” (link ao lado), surgiu com a história do “maníaco do dedo”. Agora acompanho a carreira do fora-da-lei. Segue abaixo a última notícia sobre este afamado meliante digital.

-o-o-

Maníaco do Dedo ataca mulher de 50 anos em Mesquita. Mais seis vítimas registram queixa

"Rio - O Maníaco do Dedo — taradão que está aterrorizando as mulheres na Baixada Fluminense — fez sete novas vítimas. Uma delas é mulher de 50 anos, moradora de Mesquita.

A vítima contou aos agentes da 58ª DP (Posse) que o criminoso invadiu sua casa de madrugada e foi direto ao quarto. Lá, pediu que ela calçasse um sapato alto, para depois tirá-lo e, como faz em todos os ataques, chupar os dedos dos pés da vítima.

Dessa vez, o Maníaco do Dedo não deixou um recado obsceno escrito na parede [os recados obscenos eram "seus dedos são muitos gostosos"], como vinha fazendo. Desde junho do ano passado, o safado já fez 31 vítimas, nos municípios de Nova Iguaçu, Mesquita e Nilópolis.

Além dessa vítima, outras seis mulheres compareceram à delegacia nesta terça-feira para registrar ocorrência: quatro de Nilópolis e duas de Comendador Soares, em Nova Iguaçu. Segundo a polícia, as vítimas ouvidas nesta terça na delegacia não foram estupradas, mas todas tiveram os dedos chupados. Algumas delas reagiram ao ataque gritando e conseguiram espantar o tarado."