domingo, maio 21, 2006

Estrangeirismos

Já não se sentia mais um teen, embora seus dezenove anos não o liberassem para grandes empreitadas. Filipe, que tinha começado a trabalhar cedo, aos quinze, no serviço de delivery de uma pizzaria, há alguns meses tinha passado em um teste para estágio no grande banco. Agora trabalhava como trainee na divisão de seguros. Em casa vivia entre sites e chats; assistia ao futebol e ao Big Brother, MTV e discovery channel. No final de semana, encontrava os amigos em convenience stores e dali partiam para boites. Carlos, seu irmão mais velho, sempre preferiu “o bom e velho rock” e atualmente curtia blues. Quando bem jovem Carlos até gostava de acid music e contava para Filipe sobre trips de sua adolescência quando era um dark, no Crepúsculo de Cubatão. Filipe achava graça e observava que o irmão, já noivo, estava a cada dia mais parecido com seus pais; tinha entrado para o mainstream, afinal.

Filipe tinha sonhos, queria crescer no banco. Começou por baixo mas sonhava com a faculdade de administração ou, ainda melhor, economia. Freqüentava o cursinho e planejava a pós-graduação. Achava MBA o máximo. Nos finais de semana, além das boites, passeava pelos shopping centers e ia a festas dos amigos; compravam bebidas e um deles se incumbia de ser o DJ. No domingo os rapazes encontravam-se no multiplex. Gostava de festas onde houvesse garotas um pouco mais novas pois sentia maior controle. Divertia-se com isso e, vez por outra, tentava um approach em alguma das meninas. Aquilo não era exatamente fácil e, para criar alguma coragem, procurava beber algo forte. Whisky de segunda era uma opção; na falta, topava até cognac. Não raro passava do ponto e, animado com seus brothers, virava a noite, dançando o que tocassem: forró, disco, pop ou reggae. No dia seguinte, acordava se sentindo um alien e esperava a segunda-feira chegar.

Naquele início de semana tudo estava como de hábito. Pegou a van, ligou seu discman, colocou o CD do U2, ajustou os headphones e procurou usar aqueles minutos para fazer um back up dos fatos do fim de semana, deletando o desnecessário. As imagens se misturavam aos seus sonhos e se imaginava naqueles carrões que via pela janela, grandes jeeps, reluzentes sport-utilities, com seus cockpits suntuosos, múltiplos air bags, ABS, GPS e sistema surround. “Eu chego lá”, seu inconsciente exclamava mas, por ora, preferia pensar “ah, isso é coisa de nouveau riche”.

Já no centro da cidade, parou na banca, leu as manchetes. Seu time havia vencido e a temporada da NBA, lá nos States, começara. De resto, notícias de crimes e uns partidos querendo o impeachment do Presidente. Coisas sem interesse.

Chegou ao prédio do seu banco, a grande sede da instituição multinacional. O pé-direito altíssimo era imponente e Filipe sentia-se importante por trabalhar ali, um verdadeiro expert - ainda que na realidade estivesse longe disso. Entrou no elevador sentindo ainda um pouco de sono, como num jet lag causado pela repetição diária daquele caminho. Mas algo chamou sua atenção. Antes mesmo das portas do elevador se fecharem sentiu um bouquet especial, como um spray.

No fundo do elevador, com ar de enfado e óculos que procuravam escondê-lo, estava ela. O ser mais exuberante que Filipe havia visto até ali. Pelo crachá, descobriu seu nome: Marina. Como diretor e camera-man de seu próprio filme, Filipe só enxergava a moça, o mundo para ele era um close em seu rosto de pele alva, cabelos levemente loiros, pouco abaixo dos ombros e com o uniforme padrão das moças com aspirações executivas: blazer, saia ao joelho, pasta, bolsa, escarpin. Filipe esqueceu a segunda-feira instantaneamente. Se por um lado o tempo parecia haver parado, por outro o relógio tinha disparado, o elevador subia supersônico e Filipe tentava raciocinar, não queria perder o timing. “Como estabelecer um link com ela? quem era, o que fazia?”. No momento seguinte, havia chegado o seu andar. Mas Filipe não desceu; tinha que descobrir, ao menos, onde ela trabalhava. Dois andares acima, a resposta. Marina trabalhava na divisão de marketing do banco. Rapidamente sumiu entre corredores e Filipe manteve-se parado alguns segundos. Deveria haver alguém ali que pudesse responder suas perguntas, um courier, quem sabe, para fazer um lobby junto àquela moça. Descendo pelas escadas Filipe lembrou das bonecas barbie de suas sobrinhas... Marina era perfeita.

O resto do dia passou em branco; Filipe ouvia conversas sobre dead-lines, cashflow, índice Dow Jones, join ventures com outros bancos e bugs. Seu chefe falava com outros trainees sobre o jogo de basquete, verdadeiro dream team, que assistira no pay per view e contava sobre um de seus hobbies: camping em florestas virgens. Mas para Filipe nada interessava. O rosto de Marina era só o que via, uma lady, uma deusa espalhando seu sex-appeal entre os mortais.

Mais tarde, já em casa, ela não lhe saia da cabeça. Naquela noite seu computador não foi ligado. Não navegou, seu browser manteve-se adormecido. Não houve downloads, uploads, nada. Apenas ela, aquela overdose de Marina.

Na terça-feira, descobriu que seus turnos de almoço coincidiam. Não queria esperar nem mais um dia, ela haveria de descer para almoçar, fazer compras, qualquer coisa. E isso aconteceu... Vinha com outra moça e um rapaz, um típico yuppie. Mas o playboy – aos olhos ciumentos de Filipe – seguiu em outra direção, deixando as moças sozinhas na porta de um dos vários restaurantes self-service da região. Nem sempre Filipe almoçava ali. Pelo contrário, sua renda o habilitava mais aos fast-foods ou, não raramente, apenas a algum cheeseburger na rua. No entanto, hoje ele iria almoçar com as moças. Para beber ele não queria nada. Na verdade, de fato, nem comer queria. Só procurava uma forma de fazê-la saber que ele existia. Um pouco tenso, pegou um red bull. As moças escolheram ice teas.

Por estranhos sortilégios (mas também porque naquele horário o restaurante ficava lotado mesmo), Filipe conseguiu um lugar justamente ao lado de Marina. Sabia que tudo seria uma questão a ser resolvida em segundos. Chegou o momento do match point. Uma observação rápida, inteligente e bem-humorada era necessária. Talvez as moças quisessem conversar entre si sobre algo sério mas ele teria que arriscar. Além disso, deveria emendar com uma curta história relacionada à observação feita. Era tudo ou nada. E o destino estava conspirando ao seu favor. Se inicialmente foram os estranhos sortilégios, agora eram os desígnios da sorte que lhe sopravam favoravelmente: sorrisos!

Voilà, aquele round estava ganho!

O almoço terminou, a amiga de Marina os deixou sozinhos. Passaram do horário e nem perceberam. “Conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” e Filipe propôs se encontrarem para um happy hour. “Muito melhor que enfrentar o rush”, afirmou. Marina aceitou. Nunca uma tarde havia sido tão radiante para Filipe. Sua vida agora era um thriller, estava orgulhoso de sua performance com Marina. Tudo caminhava perfeitamente. Como seu irmão costumava dizer, estava “numa nice”.

Encontraram-se no hall dos elevadores às 18 horas. Filipe pensou num bar das redondezas que iria apresentar um pocket-show mas quando lembrou que a atriz principal era uma drag queen, esqueceu essa idéia; sabe lá o que a moça iria achar! não poderia errar logo na avant-première. Pensou em boite mas era cedo e, de mais a mais, queriam conversar. Resolveram ir a um pub da moda, onde o beautiful people do centro se encontrava, ao lado de uma famosa livraria megastore com seus best-sellers na vitrine. Marina cogitou uma frozen margerita, Filipe, para impressionar, sugeriu champagne. Ela achou exagero, ele notou a bola fora. Ela resolveu-se por um bloody mary; Felipe preferiu sua conhecida Cuba libre. Falaram sobre todas as coisas; TV, esportes e música; discorreram sobre tecno e raves; jogging e natação; programas da night e matutinos. Riram das coisas “in” e analisaram o por quê das coisas “out”. As horas passaram rápidas. Se despediram, trocaram e-mails e ramais. Filipe deixou Marina na estação do metrô. A vontade do rapaz era poder dizer, desde já, “I love you”. Mas não; ele sabia que chegaria a hora certa e que sua história, com certeza, teria um happy end.

9 comentários:

Luma Rosa disse...

Gostei do seu blogue, passa lá no meu...rs.
Foi desse tipo de comentário que fiz crítica, não foi direcionado pra ninguém.
Essa história é real ou é um conto? muito boa e tem fundo musical.
Quanto a pergunta da sua postagem anterior, os presos não recarregam as baterias de seus celulares, quem visita deve levar algumas novas. Então, a revista não está sendo correta ou alguém está sendo corrompido...novidade! (rs*)
Boa semana! Beijus

Frederico disse...

Luma, é ficção... Mas poderia ser verdade mesmo. Fiquei com essa impressão, ao terminar. O objetivo, bem claro, foi alocar no menor espaço possível vários termos estrangeiros que usamos no dia-a-dia. Acabei criando uma breve história bem plausível. Achei bonitinha. Claro que, como em qualquer história, há alguma coisa auto-biográfica, nem se seja um pequeno detalhe; afinal, a gente escreve sobre o que conhece. Mesmo na ficção-científica apenas o cenário é fantástico. As relações são essas aí, iguais há milhares de anos. ;-)

Denise S. disse...

O texto está ótimo, Frederico, as usual. Muito bom mesmo. Thanks pelo link e, bem, releve o excesso de meus estrangeirismos. É que às vezes acho que, embora as fronteiras físicas agora sejam tênues, os afetos estejam murados. Vc não?
p.s. não sei como se faz para colocar links, por isso não te coloco lá no meu blog. Sou uma anta primária nestes assuntos informáticos. Não sei fazer nada além do bê-a-bá.

Frederico disse...

Denise, não sou contra anglicismos, galicismos e assemelhados. A língua é um organismo e, como tal, se for congelada, está morta ou, no mínimo, condenada. O texto foi só uma abordagem divertida sobre nosso jeito de falar. Acho que os estrangeirismos devem ser bem-vindos em qualquer língua, com o devido comedimento (atitude que serve pra qualquer outra coisa). Quanto a colocar links no blog, posso te mandar um email explicando. Não é dificil (senão eu não conseguiria!). ;-)

Denise S. disse...

pode mandar, então. Ficarei agradecida. É denisesollami@yahoo.com.br.

Patrícia Cunegundes disse...

Aimeudeusdocéu como sou velha: Crepúsculo de Cubatão bateu lá na alma. Isso não se faz...

Anônimo disse...

Gostei!! Não sou contra estrangeirismos, até porque quem assiste muito filme e seriado americano como eu, percebe que eles também usam palavras estrangeiras... normal em qualquer língua e interação né?
Agora falando da estória, achei muito fofo toda a paquera... muito bonitinho!!

Frederico disse...

Jade, ao terminar, justamente com um "end" fiquei com um sentimento de carinho por ela (a história). É bonitinha mesmo. ;-)

Anônimo disse...

bom comeco