terça-feira, abril 25, 2006

Estrada Real. Vida real.

Nos últimos dias vislumbrei diversas formas de abordar o tema que se segue. Poderia enfatizar a aventura rural ou focalizar o absoluto esgotamento físico; poderia ainda contrapor a vida simples e saudável no campo à estressante sobrevivência na grande cidade. Também tentar narrar a sensação de deslumbramento frente a uma maravilha da natureza, falar da beleza arquitetônica de Diamantina – rivalizando-se às igualmente históricas Ouro Preto e Tiradentes – ou até mesmo falar de um cãozinho cuja presença foi completamente inusitada, visto onde foi encontrado. Tudo é importante e se completa.

O convite era irrecusável: viajar ao longo da famosa Estrada Real, partindo de Belo Horizonte até Diamantina. A certeza de encontrar inúmeros lugarejos com sua gente de bom coração e vida simples era magnética. A expectativa de conhecer lugares sensacionais, de beleza estonteante, causava ansiedade. Como não voltar a Minas Gerais? Pois lá retornamos, eu e Clítia.

Tenho para mim que fotos podem transmitir uma enorme parcela da beleza de algo ou alguém. No entanto, a experiência física, com todos os sentidos recebendo diversas informações, não tem como ser superada.

O contato com os habitantes de Conceição do Mato Dentro, São Gonçalo do Rio das Pedras e de toda a região da Serra do Cipó é revitalizante. Foi uma grata surpresa encontrar em São Gonçalo o povo dançando no largo central do vilarejo, celebrando nossa cultura, com danças afro e a congada. A coroar tudo isso está “A Cachoeira”.

Após conhecê-la, busquei informações na Internet. Sua presença esguia e vibrante me fascinou. Sua beleza estética foi hiptonizante. O som que emitia, por vezes agudo, como velozes estalidos de trovoada próxima e no momento seguinte rouco, preenchendo o ambiente, como trovão distante, me arrebatou. Há diversos sites, a maioria de eco-turismo, que falam sobre a Cachoeira Tabuleiro (assim, com maiúsculas, porque merece). A caminhada ao seu encontro, por cerca de duas horas descendo uma encosta – muitas vezes íngreme – e depois enfrentando pedras de todos os tamanhos e angulações, vai desvendando uma beleza de ficção; uma meia circunferência de rocha perfeitamente vertical, alcançando cerca de 300 metros de altura. Lá embaixo a água explode sobre pedras e um lago de águas cor de mate, em vigoroso movimento. O deslocamento daquela colossal coluna d’água produz um constante vento na base da cachoeira, muito bem-vindo àqueles que ali chegaram para desfrutar do espetáculo natural.

Tabuleiro é um lugar de beleza inebriante, comovente mesmo, que, justamente por isso, nos aproxima inevitavelmente de divagações sobre o desconhecido, nos aproxima daquelas questões transcendentes, religiosas, fundamentais – e nos afastam dos persistentes e comparativamente insignificantes problemas cotidianos. Talvez por isso aquele esquálido cãozinho branco, encontrado junto à base da cachoeira e que nos pareceu perdido, faminto e fadado ao ocaso por inanição, tenha se mostrado como uma espécie de espírito vivo do lugar, retornando pela trilha com bastante vivacidade, parando a toda hora, olhando para trás em nossa direção, nitidamente nos indicando o caminho – coisa muito necessária, sabendo-se que já íamos nos perdendo por duas vezes no retorno à “civilização” e que a noite se aproximava perigosamente.

Quanto à dificuldade do "passeio" até a cachoeira, deixo a descrição a cargo do site oficial da Estrada Real (www.estradareal.org.br), aproveitando para uma informação adicional: "Para se chegar ao poço da Cachoeira, a partir do povoado de Tabuleiro, a maneira mais usual é fazendo um trekking, com duração aproximada de 02:00hs e com um nível alto de dificuldade. O Guia Quatro Rodas a classificou como a cachoeira mais bonita do Brasil ".

À noite, já no minúsculo, encantador e pacífico povoado chamado singelamente “Milho Verde”, o céu se encheu de infinitos astros, com algumas estrelas cadentes singrando a abóboda. A noite, com seu céu negro fartamente pontilhado por brilhantes, teve apenas como companhia os sons dos pequenos animais silvestres. A exuberância da natureza, com suas belezas e desafios, me concedeu o privilégio de esquecer do nosso mundo, cheio de pelejas e conquistas muitas vezes tão artificiais e de discutíveis propósitos.

3 comentários:

Clítia disse...

Amor, sua descrição foi perfeita! Parabéns!!!!Fico lisonjeada de participar e de te mostrar coisas tão lindas e diferentes do seu mundo como tenho feito! Que bom que você gosta!Saiba que os mineiros estarão sempre dispostos a te mostrar nossa cultura, nossa maneira de ser e viver, mesmo que de maneira muito simples, mas muito, muito acolhedora , com mesa muito farta e águas muito doces! te amo.

Denise disse...

Frederico Francisco, vc é um escritor de raro talento. Belo texto! Viajei. E fiquei doida para voltar a Minas - para onde não se vai, e sim de onde se está sempre vindo.

Paula disse...

Fred, que contagiante seu texto, voltei por alguns instantes a tabuleiro, fiquei emocionada...