terça-feira, setembro 05, 2006

Quando amanhã vai chegar?

O esguio e elegante jato ERJ-145, apelidado de “jet class” pela VARIG, decolou do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, rumo ao Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont. Estar naquele vôo, numa terça-feira de manhã, voltando de Minas Gerais, era algo completamente incomum mas o motivo foi relevante: o aniversário de minha (então) noiva havia sido na véspera e como iríamos nos casar dentro de menos de um mês, achei por bem estar junto à minha futura mulher, comemorando aquele último aniversário de solteiros. Dessa forma, estiquei o final de semana, conseguindo no tribunal permissão para não trabalhar na segunda-feira.

Já estava tudo pronto para o casamento (ou quase tudo): a viagem estava comprada, o apartamento reformado, a cerimônia e festa (em Belo Horizonte, naturalmente) faltando apenas detalhes. A vida seguia firme, estável e, a despeito da ansiedade crescente pelas núpcias, estávamos tranqüilos. Firme e estável, também, seguia o pequeno avião, em seu percurso de aproximadamente 50 minutos até o Rio de Janeiro.

Na hora certa, algo depois das nove, o avião tocou o solo carioca. Taxiou, parando a poucos metros do histórico prédio do aeroporto. Muitos podiam achar desconfortável aquele trajeto a pé entre a aeronave e o terminal mas eu adorava, quanto mais em um dia como aquele, com o céu profundamente azul, o suave sol de setembro aquecendo com delicadeza a cidade. Observei o Pão de açúcar enquanto caminhava, a cidade merecendo o antigo título de maravilhosa.

Após pegar na esteira minha bolsa de viagem, fui para a fila do táxi. Tinha que ir trabalhar, mas como morava próximo ao centro, no Flamengo, decidi passar em casa antes. Mantive algum assunto banal com o motorista, talvez sobre o tempo no final de semana, talvez sobre futebol. Sobre nada mais falamos pois era, afinal, uma terça-feira qualquer.

Ao chegar em casa, cumprimentei usualmente o porteiro. Morava sozinho e, por isso, ninguém me esperava, a não ser o telefone que – por acaso? – tocava naquele momento. Atendi. Do outro lado, o velho amigo, Cayo, esbaforido: “Fred, você sabe o que está acontecendo??”; “Não, não sei. O quê?”; “Você NÃO SABE o que está acontecendo ??!?!?!!!!!!”; “NÃOOO!!! Eu-não-sei!!! O que está acontecendo?!; “MAS VOCÊ NÃO SABEEE !?!?!”. (De verdade, pensei: “meu deus, alguma tragédia colossal, mas em um dia assim?!”). “Cayo, eu NÃO TENHO IDÉIA sobre o que esteja acontecendo! Me diz logo!!!!”; “Liga a televisão”.

Há poucos minutos o segundo avião havia atingido a torre sul. Todos os canais repetiam a cena. Era muito estranho: algum piloto havia errado e batido em cheio no World Trade Center. Mas outro iria errar logo assim em seguida?? Imediatamente o mundo se deu conta de que não havia acidente algum e sim a implementação do terror como divisor de águas. Aquela linda manhã no Rio de Janeiro e em Nova Iorque marcava o primeiro dia de uma época de medo, ódios e preconceitos, mesclados à desconfiança e incerteza.

Quando tudo aconteceu, eu estava dentro de um avião, placidamente voltando para casa. Foi um dia tão marcante que nos faz lembrar de tudo o que fizemos, o que pensamos e sentimos. A clareza daqueles momentos em nossa mente dá a impressão de que não se passaram cinco anos. E, de fato, para mim, aquele 11 de setembro de 2001 continua até hoje e não há a menor previsão de que consigamos cruzar a meia-noite.

(tirei a foto que aparece no início do texto em setembro de 1995. Quem poderia imaginar aquilo ali, exatos seis anos depois?...)

15 comentários:

Ane Brasil disse...

Engraçado, eu também fui avisada pelo telefone.
Minha amiga foi menos dramática que seu amigo. ela simplesmente disse: liga a TV agora!
E eu, meio dormindo perguntei?
Ahn? Quê, POr que?
Jogaram uma bomba nos EStados Unidos. Liga a tv agora!
E foi assim que eu acordei naquele onze de setembro.
Detalhe: onze de setembro é aniversário do meu marido.
Na época eramos namorados...
Eu quase enlouqueci entre e a TV e o telefone com ele naquele dia.
O mais engraçado é que, até hoje, as pessoas se recordam, exatamente, o que estavam fazendo naquele onze de setembro.

Frederico disse...

Os telefones tocaram como nunca naquele dia. Acho que quase todo mundo foi avisado por telefone. Quem está assistindo à TV pela manhã, não é mesmo, Ane? E aquele dia ficou muito marcado na mente de todos; muito impressionante, violento e surpreendente. E agora estamos aqui, vivendo os ecos daquelas explosões.

Denise Sollami disse...

Ninguém se esquece desses detalhes, ficam mesmo plasmados para sempre na memória. Eu escrevi sobre o onze de setembro no 'quieta', o texto "Fudevú de Cassarolê", porque, de alguma forma, eu quis deixar registrado, não apenas para mim.
O curioso é que já faz cinco anos e, no entanto, parece que foi ontem.

luma disse...

Eu estava vendo a tv!!! Quando vi pensei que fosse um filme. Ainda não acostumei com a cena e com as cenas seguintes. Cenas chocantes que ficarão gravadas indeterminadamente na nossa mente.

Bom fim de semana!!

mercedes poison disse...

Eu estava no supermercado e vi pela TV...Imagina todas aquelas TVs do mostruário sintonizadas ao mesmo tempo.
Em um primeiro momento, as pessoas olharam curiosas...acho que, como eu, acharam que era um filme, um lançamento em dvd, sei lá...
Demorei pra me ligar que aquelas cenas eram reais e e em tempo real.

Anne disse...

Eu também estava assistindo tv. Tinha chegado cedo na redação porque deixava minha filha na escola e ia direto pro trabalho e a tv sempre ficava ligada.
No início pensei que fosse um documentário daqueles que predictam catástrofes.
Demorou a cair a ficha e depois foi aquele desespero para tentar falar com as pessoas amigas que morava lá e saber que estava tudo bem.

Marisa disse...

Eu estava em um táxi, indo trabalhar. Minha mãe me ligou " vai buscar a Gabi na escola!!!! ". E não é que eu quase voltei mesmo? Medo de o mundo acabar naquele dia e eu lá, na Presidente Vargas, longe da minha filha...

Frederico disse...

Denise, o "fudevú" foi um grande motivo que me fez escrever esse post na semana passada. Desde que li seu fudevú de cassarolê, há alguns meses, fiquei com essa questão na cabeça. O resultado foi esse aí que você leu.

Frederico disse...

Marisa, podemos imaginar que foi como um ensaio para observar nossas reações para o fim do mundo. E, em adendo ao post: fiquei assistindo as notícias, quieto em casa. Só fui trabalhar quando notei que o céu não ia cair sobre nossas cabeças, ao menos naquele dia. // E hoje amanheceu um dia muito similar àquele de cinco anos atrás.

Cunegundes disse...

Então vc tb estava viajando?

Frederico disse...

Pois então, Amélie, estávamos singrando os ares do Brasil. Estava tudo tão tranqüilo...

Teresa disse...

Tem razão, Fred (posso te chamar assim?) Nenhum de nós vai esquecer o que estava fazendo e pensando naquele dia.

Ingrid Littmann disse...

O cèu de Nova York aquele 11 de setembro estava também azul como você descreveu que estava no Brasil. E eu estava lá bem proxima a tudo aquele filme de ação que nunca mais nos serres humanos iremos nos esquecer. Foi a minha primeia vez em terras americanas, saimos de Israel onde atentados terroristas simplesmente acontecem e chegamos ao mais fundo de nos mesmo neste 11 de setembro onde ouvidos e olhos ficaram paralisados em frente a uma televisão. Onde o plano naquela manhã seria sair para encontrar uma prima bem ali no World Trade Center. Por uma questão de sorte, destino se assim quiser chamar vimos somente a imensa torre gemea destruido e uma fumaça estonteante que durou muito mais muito tempo no ar pesado e triste da atmosfera americana.

Pessoas nas ruas choravam sem rumo.....Foi dificil demais presenciar esse apocalipse.
beijos

claudia disse...

Oi Fred, adorei ler o seu relato... engraçado o ritmo que você imprimiu ao texto. Fiquei esperando sua história de amor com minha conterrânea... e de repente, veio o bin laden estragar meu enlevo... vou escrever sobre o meu dia... há 5 anos atrás. Ainda hoje... bjs, claudia

Frederico disse...

Se para nós, aqui distantes, foi como um soco em cheio bem no nariz (aiii...) imagino em Manhattan... o som, o cheiro, o desespero. Que horror. // É Cláudia, a vida dá essas guinadas; diria o outro "loucura, loucura, loucura".