Vem então à público, com voz embargada e tremeluzente - como vela acessa sob brisa - o pai de um dos malandros (muito bem chamados de "playboys" no Jornal Nacional) que espancaram a moça, o tal Ludovico, dizer que "eles erraram, sim, mas deixar as crianças que estudam, trabalham, etc, na cadeia, é demais! é desnecessário!". Entendo que em momentos de tensão as pessoas digam bobagens mas sempre há um limite para a boçalidade. Malandros escudados pela classe social serem chamados de crianças? que vergonha!
Gabriel foi premonitório. Ou melhor, nem tanto. Apenas foi observador, o pensador.
"Pergunta prum playboy o quê ele pensa da vida. Sabe o que ele te diz? (Se borra todo?) Não, mais ou menos assim:"Sou playboy e vivo na farra, vou à praia todo dia e sou cheio de marra. Eu só ando com a galera e nela me garanto, só que quando estou sozinho eu só ando pelos cantos. Porque eu luto Jiu-Jitsu mas é só por diversão (É isso aí meu "cumpádi", my brother, meu irmão). Se alguma coisa está na moda então eu faço também, igualzinho a mim eu conheço mais de cem. (...) E o que eu sinto pelo país é o que eu sinto pelo povo. Olha só que legal quando eu pego um ovo, entro no carro com os amigos e levo o ovo na mão (Olha o ponto de ônibus, freia aí meu irmão!!). E eu taco o ovo bem na cara de um trabalhador que esperava o seu ônibus que passou e não parou. Que maneiro, eu não ligo pra quem tá sofrendo, em vez de eu dar uma carona eu deixo o cara fedendo".
Há uns quinze anos eu poderia ser enquadrado na posição social que esses malandros estão agora. Vinte, vinte e poucos anos, zona sul, carro desde sempre (e todos os amigos idem), night, etc. Muitas vezes ficávamos parados ali no posto Mengão, na Lagoa. Dali, após dar uma "calibrada", ia para as boates. Sim, gostava de correr de carro mas normalmente quando NÃO estava com álcool na corrente sangüínea (tanto que aqui estou). E, mais tarde, lá pelas quatro da matina, ia comer um sanduíche no BB Lanches, no Leblon, e depois (ou antes, bem mais cedo; não havia regra), geralmente, uma "patrulha".
A "patrulha" era nada mais que ir ver as moças que trabalham na noite, "na pista", como elas mesmo diziam. Muito diferente dessas "crianças" de hoje, tratávamos bem as meninas. E mais até: parávamos, todo mundo saía do carro e, por vezes, ficávamos por ali, conversando. Numa boa, sem desrespeito algum. Ninguém que eu tenha conhecido pensaria em bater nelas. Gostávamos delas, justamente pelos motivos mais que óbvios.
Essas "crianças" de hoje, e seus pais, são muito estranhos.
