Já não se sentia mais um
teen, embora seus dezenove anos não o liberassem para grandes empreitadas. Filipe, que tinha começado a trabalhar cedo, aos quinze, no serviço de
delivery de uma pizzaria, há alguns meses tinha passado em um teste para estágio no grande banco. Agora trabalhava como
trainee na divisão de seguros. Em casa vivia entre
sites e
chats; assistia ao futebol e ao
Big Brother,
MTV e
discovery channel. No final de semana, encontrava os amigos em
convenience stores e dali partiam para
boites. Carlos, seu irmão mais velho, sempre preferiu “o bom e velho
rock” e atualmente curtia
blues. Quando bem jovem Carlos até gostava de
acid music e contava para Filipe sobre
trips de sua adolescência quando era um
dark, no Crepúsculo de Cubatão. Filipe achava graça e observava que o irmão, já noivo, estava a cada dia mais parecido com seus pais; tinha entrado para o
mainstream, afinal.
Filipe tinha sonhos, queria crescer no banco. Começou por baixo mas sonhava com a faculdade de administração ou, ainda melhor, economia. Freqüentava o cursinho e planejava a pós-graduação. Achava
MBA o máximo. Nos finais de semana, além das
boites, passeava pelos
shopping centers e ia a festas dos amigos; compravam bebidas e um deles se incumbia de ser o
DJ. No domingo os rapazes encontravam-se no
multiplex. Gostava de festas onde houvesse garotas um pouco mais novas pois sentia maior controle. Divertia-se com isso e, vez por outra, tentava um
approach em alguma das meninas. Aquilo não era exatamente fácil e, para criar alguma coragem, procurava beber algo forte.
Whisky de segunda era uma opção; na falta, topava até
cognac. Não raro passava do ponto e, animado com seus
brothers, virava a noite, dançando o que tocassem: forró,
disco,
pop ou
reggae. No dia seguinte, acordava se sentindo um
alien e esperava a segunda-feira chegar.
Naquele início de semana tudo estava como de hábito. Pegou a
van, ligou seu
discman, colocou o
CD do
U2, ajustou os
headphones e procurou usar aqueles minutos para fazer um
back up dos fatos do fim de semana,
deletando o desnecessário. As imagens se misturavam aos seus sonhos e se imaginava naqueles carrões que via pela janela, grandes
jeeps, reluzentes
sport-utilities, com seus
cockpits suntuosos, múltiplos
air bags,
ABS,
GPS e sistema
surround. “Eu chego lá”, seu inconsciente exclamava mas, por ora, preferia pensar “ah, isso é coisa de
nouveau riche”.
Já no centro da cidade, parou na banca, leu as manchetes. Seu time havia vencido e a temporada da
NBA, lá nos
States, começara. De resto, notícias de crimes e uns partidos querendo o
impeachment do Presidente. Coisas sem interesse.
Chegou ao prédio do seu banco, a grande sede da instituição multinacional. O pé-direito altíssimo era imponente e Filipe sentia-se importante por trabalhar ali, um verdadeiro
expert - ainda que na realidade estivesse longe disso. Entrou no elevador sentindo ainda um pouco de sono, como num
jet lag causado pela repetição diária daquele caminho. Mas algo chamou sua atenção. Antes mesmo das portas do elevador se fecharem sentiu um
bouquet especial, como um
spray.
No fundo do elevador, com ar de enfado e óculos que procuravam escondê-lo, estava ela. O ser mais exuberante que Filipe havia visto até ali. Pelo crachá, descobriu seu nome: Marina. Como diretor e
camera-man de seu próprio filme, Filipe só enxergava a moça, o mundo para ele era um
close em seu rosto de pele alva, cabelos levemente loiros, pouco abaixo dos ombros e com o uniforme padrão das moças com aspirações executivas:
blazer, saia ao joelho, pasta, bolsa,
escarpin. Filipe esqueceu a segunda-feira instantaneamente. Se por um lado o tempo parecia haver parado, por outro o relógio tinha disparado, o elevador subia supersônico e Filipe tentava raciocinar, não queria perder o
timing. “Como estabelecer um
link com ela? quem era, o que fazia?”. No momento seguinte, havia chegado o seu andar. Mas Filipe não desceu; tinha que descobrir, ao menos, onde ela trabalhava. Dois andares acima, a resposta. Marina trabalhava na divisão de
marketing do banco. Rapidamente sumiu entre corredores e Filipe manteve-se parado alguns segundos. Deveria haver alguém ali que pudesse responder suas perguntas,
um courier, quem sabe, para fazer um
lobby junto àquela moça. Descendo pelas escadas Filipe lembrou das bonecas
barbie de suas sobrinhas... Marina era perfeita.
O resto do dia passou em branco; Filipe ouvia conversas sobre
dead-lines,
cashflow, índice
Dow Jones,
join ventures com outros bancos e
bugs. Seu chefe falava com outros
trainees sobre o jogo de basquete, verdadeiro
dream team, que assistira no
pay per view e contava sobre um de seus
hobbies:
camping em florestas virgens. Mas para Filipe nada interessava. O rosto de Marina era só o que via, uma
lady, uma deusa espalhando seu
sex-appeal entre os mortais.
Mais tarde, já em casa, ela não lhe saia da cabeça. Naquela noite seu computador não foi ligado. Não navegou, seu
browser manteve-se adormecido. Não houve
downloads,
uploads, nada. Apenas ela, aquela
overdose de Marina.
Na terça-feira, descobriu que seus turnos de almoço coincidiam. Não queria esperar nem mais um dia, ela haveria de descer para almoçar, fazer compras, qualquer coisa. E isso aconteceu... Vinha com outra moça e um rapaz, um típico
yuppie. Mas o
playboy – aos olhos ciumentos de Filipe – seguiu em outra direção, deixando as moças sozinhas na porta de um dos vários restaurantes
self-service da região. Nem sempre Filipe almoçava ali. Pelo contrário, sua renda o habilitava mais aos
fast-foods ou, não raramente, apenas a algum
cheeseburger na rua. No entanto, hoje ele iria almoçar com as moças. Para beber ele não queria nada. Na verdade, de fato, nem comer queria. Só procurava uma forma de fazê-la saber que ele existia. Um pouco tenso, pegou um
red bull. As moças escolheram
ice teas.
Por estranhos sortilégios (mas também porque naquele horário o restaurante ficava lotado mesmo), Filipe conseguiu um lugar justamente ao lado de Marina. Sabia que tudo seria uma questão a ser resolvida em segundos. Chegou o momento do
match point. Uma observação rápida, inteligente e bem-humorada era necessária. Talvez as moças quisessem conversar entre si sobre algo sério mas ele teria que arriscar. Além disso, deveria emendar com uma curta história relacionada à observação feita. Era tudo ou nada. E o destino estava conspirando ao seu favor. Se inicialmente foram os estranhos sortilégios, agora eram os desígnios da sorte que lhe sopravam favoravelmente: sorrisos!
Voilà, aquele
round estava ganho!
O almoço terminou, a amiga de Marina os deixou sozinhos. Passaram do horário e nem perceberam. “Conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” e Filipe propôs se encontrarem para um
happy hour. “Muito melhor que enfrentar o
rush”, afirmou. Marina aceitou. Nunca uma tarde havia sido tão radiante para Filipe. Sua vida agora era um
thriller, estava orgulhoso de sua
performance com Marina. Tudo caminhava perfeitamente. Como seu irmão costumava dizer, estava “numa
nice”.
Encontraram-se no hall dos elevadores às 18 horas. Filipe pensou num bar das redondezas que iria apresentar um pocket-show mas quando lembrou que a atriz principal era uma drag queen, esqueceu essa idéia; sabe lá o que a moça iria achar! não poderia errar logo na avant-première. Pensou em boite mas era cedo e, de mais a mais, queriam conversar. Resolveram ir a um pub da moda, onde o beautiful people do centro se encontrava, ao lado de uma famosa livraria megastore com seus best-sellers na vitrine. Marina cogitou uma frozen margerita, Filipe, para impressionar, sugeriu champagne. Ela achou exagero, ele notou a bola fora. Ela resolveu-se por um bloody mary; Felipe preferiu sua conhecida Cuba libre. Falaram sobre todas as coisas; TV, esportes e música; discorreram sobre tecno e raves; jogging e natação; programas da night e matutinos. Riram das coisas “in” e analisaram o por quê das coisas “out”. As horas passaram rápidas. Se despediram, trocaram e-mails e ramais. Filipe deixou Marina na estação do metrô. A vontade do rapaz era poder dizer, desde já, “I love you”. Mas não; ele sabia que chegaria a hora certa e que sua história, com certeza, teria um happy end.