“... mas não vou acender agora. Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem
hora.”
“... que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que
passa...”
Na segunda-feira cumpri o ritual. Postei-me na fila do consulado, ali no início da rua México, para horas e horas de espera, e senha, e outra fila, e guichê, e digital no leitor ótico, espera de novo, senta, conversa, muda de lugar e, lá pro início da tarde, uma entrevista de um minuto, se tanto. Pronto, agora tenho visto renovado. Uncle Sam, here we go again.
Como alguns de vocês talvez tenham lido lá no texto “One day at the races e...”, procuro, na medida do possível, fazer de uma falta (um problema ou contratempo) algo que dê prazer. Dessa forma, se você não é alguém muito, muito famoso, a fila do consulado americano é a opção única para obtenção do salvo-conduto para os EUA. E como todos sabem, é uma fila “de responsa”. Mas diferente de todo mundo, eu não sabia. Ou melhor, sempre soube que era longa (e já a enfrentei mais de uma vez) mas cultivava a esperança de estar um pouco melhor, mais célere. Tanto que ao deixar o carro ali perto, na avenida Beira-Mar, disse pro guardador “deixa pra volta, não vou demorar!”... Bom, já que a espera era inevitável, "vem, vambora" relaxar (diria a Calcanhoto).
Cheguei por volta das 8:30 da madrugada. A fila tinha uns 20 metros, algo assim. Primeira providência: arrumar os tais formulários para preencher ali mesmo e que ainda não os tinha (naquela manhã, bem cedo, a lei de Murphy havia me atingido: fui imprimir em casa os formulários e... acabou a tinta! Perigo, perigo! estresse, estresse!). Obtidos os formulários, hora de preencher. Perguntas de praxe e aquelas questões sobre querer praticar algum atentado nos states ou ter participado de algum genocídio. Não, não, não! Nego tuuudo!
Pronto, consegui ocupar meus 10 primeiros minutos de espera. E agora? À minha frente, um jovem casal, uns 30 anos. O rapaz parecendo paulista, terno elegante, gel no cabelo, rosto escanhoado, óclinhos. A moça seguindo o padrão “jovem advogada” ou jovem-profissional-de-qualquer-área-na-qual-se-deve-impressionar-positivamente-o-cliente. Bem postados, na vida e ali, resignadamente na fila. Logo atrás, um casal levemente passados dos 50 anos. Noto uma leve aflição nesses últimos e escuto seu dilema: “você me espera aqui; eu vou ao banco pagar a taxa”; “tá... tem uma agência [do Citibank – único lugar onde se pode pagar a taxa de US$ 100] lá na rua da Assembléia”. Intrometo-me, com o espírito samaritano: “olha, tem uma agência nova aqui perto, na Araújo Porto Alegre, logo ali ó, à direita”. Mas saliento que àquela hora (quase nove) estaria fechada; “só às 10”. Eles entendem que (apenas) a nova agência abriria às 10 horas já que o senhor diz, “ahhh... passei pela outra agência, já está aberta...”. Aberta?? É óbvio que não! Decerto viu alguém entrando para os caixas automáticos e presumiu os caixas humanos funcionando. Fico desconcertado. Onde vive essa gente que não sabe o horário bancário? Coisa incrível... Pelo sim, pelo não, dentro de alguns minutos parte a senhora, sabe-se lá para qual agência.
“Já pagou a taxa?”, perguntam uns camaradas que percorrem a fila, mostrando uma folha de taxa paga. Já, já, já, já, todos pagaram. Surgem outros: “tem foto? tem foto?”. O senhor de trás, agora sozinho, não tinha. “Mas vou esperar minha mulher voltar”. “Não, não, vamos logo, é rapidinho”. “Onde?”. “Ali, do outro lado [da rua]”. Foram. Observo. No meio da calçada do lado de lá um fundo branco grudado com ventosas na fachada do prédio decano faz o trabalho de estúdio. Momentos depois, quando volto a olhar, já vem voltando o senhor com a foto para o passaporte. Valor da película: vin-te reais. É aquilo: “vou apertar mas não vou acender agora”.
Sem contar os cambistas de taxa e foto, tem ainda, já há longa data, a barraquinha para guarda de volumes (bolsas, celulares, et al) que não podem adentrar o consulado. Até onde sei, o barraqueiro já teve seus dias de glória. No entanto há alguns meses o Cônsul se dispôs a guardar os badulaques do povo. Ainda assim, resiste lá a barraca à espera de algum incauto, provavelmente.
No meio disso tudo, a moça jovem-advogada resolve se mexer. Afinal já estamos há cerca de uma hora por ali. Bem à minha frente, saca o celular. Na altura dos olhos começa a escrever uma mensagem a qual, em explícita invasão de privacidade e da qual não consigo fugir, sou obrigado a ler. “Fulano, estou passando mal, só vou trabalhar à tarde. Se alguém perguntar por mim, me avise”. Ora, ora, mentindo hein, garota?... Por que não dizer, com antecedência, “olha na segunda, dia tal, daqui a dois meses, vou ter que ir ao consulado, blábláblá”? Continuando assim, sua carreira não vai longe lá no escritório...
Mensagem enviada, hora de cuidar da aparência (somos do terceiro mundo mas somos arrumadinhos). Mocinha saca seu espelho de maquiagem; pega uma pinça no fundo da bolsa; encosta-se no muro baixo que circunda o consulado e põe-se a fazer as sobrancelhas! Assim, no meio da rua, “tô nem aí, tô nem aí”. O noivo (isso descobri depois) impávido, aparentemente achando normal. Ih, esse vai sofrer. “... mais cheia de graça (...) num doce balanço, a caminho do mar...”
Bom, lá dentro, é aquilo que já disse: entra numa filinha, dá papel. Senta; vai num guichê, digital; volta para a fila e no final conversa um minuto e vai embora. Mas não sem mais uma pitada do jeitinho: faltam poucos para serem atendidos. Uma menina à minha frente comenta algo com um segurança do consulado sobre a longa espera. Ele diz, para todos nós: “Ah, mas agora é melhor, fica mais fácil. Eles (os gringos da entrevista) já estão mais cansados, são menos rigorosos”. “Hum, será?”, penso.