Tenho receio desse blog fazer parecer que tenho uma inclinação para coisas tristes, deprês; há pouco tempo escrevi sobre nosso desconforto perante a morte, depois sobre meu trauma aos cinco anos e agora, logo aí embaixo, sobre o rapaz assassinado. Malgrado a cor negra do ambiente - que dá um aspecto lutuoso ao blog - não sou nada depressivo ou desanimado. Dito isso, vou contar uma história aqui que envolve em dado momento até cemitério (!) mas que - a despeito de uma primeira impressão - foi boa e, certamente, marcante.
Como muitos que aqui vêm já sabem, no dia 05 de junho foi meu aniversário. Dia de semana, dia de labuta, não haveria "nada demais". "Algo demais" significa... f-e-s-t-a! Não dá para fazer festa numa segunda. Além disso, eu já havia ido numa MUITO BOA no sábado, em Belo Horizonte e, mais ainda, a minha festa estava (e está) marcada para o sábado seguinte, dia 10 de junho. Iria na segunda-feira apenas a um restaurante no qual Clítia já havia feito reserva.
Mas não sabia que havia um "sensor de sei-lá-o-que" no motor do carro, sensor (esse invejoso) que também resolveu parar para descansar (e não mais voltar a trabalhar) quando fiz uma "escala" numa lanchonete da estrada, no domingo à tarde, voltando para o Rio.
Deixadas burocracias da vida e sentimentos de impotência de lado, frente a elementos que achávamos que iriam funcionar (e nem falo mais do sensor), os viajantes dividiram-se em dois conjuntos: um, composto por uma jovem e querida moça, seu irmão (meu cunhado) e nossa cachorrinha, seguiram viagem para o Rio, na carona de uma boa alma que se viu na mesma situação em que estávamos (mas que teve seu carro consertado) , e outra parte, formado por um único sujeito, que teve que ficar em Barbacena, num hotel, aguardando o conserto. Tal decisão envolveu algumas horas de debate que foram passadas, ainda que em vão, na esperança de fazer o "sensor sei-lá-do-que" funcionar.
Caso você não saiba, eis aqui uma revelação: conserto de automóvel é igual a obra em casa; sempre demora mais que o previsto. Daí que, achando que antes do meio-dia estaria livre, acabei saindo daquela cidade mineira apenas às 7 horas da noite! mas, como disse na introdução, foi um dia atípico e proveitoso. Já que o exílio era inevitável, acordei cedo, tomei um bom café da manhã de hotel (coisa que costuma ser sempre boa), peguei a câmera e sai clicando Barbacena e seu povo; avistei uma igreja ao longe, numa elevação. Uma moça me disse que o nome era igreja "da boa morte" nome que sempre acho estranho. Fui lá ver. Junto à igreja é que notei um arrumadinho e tranqüilo (como soi ser) cemitério em seus fundos. Visitei-o também e, por estranho que possa parecer a um ou outro, encontrei paz ali, onde duas senhoras rezavam o Pai-nosso frente a um jazigo e uma moça pranteava um ente amado em outro; fiquei com pena dela mas minutos depois tive conforto ao vê-la, já fora do campo santo, conversando normalmente com um senhor. Sua vida continuava, afinal das contas.
Após essa nota de pesar e resignação caminhei longamente, visitei as igrejas e acabei chegando ao campus da Escola Agrotécnica de Barbacena, um bonito prédio com uma boa vista da cidade. No meio da tarde rumei para a oficina, aguardando pacientemente a cirurgia que faziam nas entranhas automotivas. Às 19 horas consegui seguir caminho com meu companheiro sensor (verdadeiro censor) e após três horas de incertezas na estrada vazia (segunda à noite, imagine só...) finalmente cheguei em casa, divisando, apenas às 22 horas do dia do aniversário, um rosto conhecido!
Enfim, sempre que possível temos a obrigação de fazer de uma falta algo que dê prazer. Quando o inesperado surge devemos organizar a urgência e, nos casos possíveis, aproveitar em nosso favor o novo caminho. Nem que seja numa terra desconhecida, no dia do aniversário.